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domingo, 21 de abril de 2013

O Céu Oceano




Uma nuvem feito pedra
Flutua no oceano calmaria
Enquanto ondas de vento
Quebram nos rochedos de minha alma.

Meu peito é cais aberto
Esperando a chegada de um amor tranqüilo
Que vaga perdido
Sem meu endereço, nem meu destino.

O céu oceano é o que ainda me mantém em terra
Aprisionado por uma promessa
De que se eu ficar parado
O mundo irá girar
E trazer para mim uma promessa antiga.

quinta-feira, 21 de março de 2013

A Flor Dentro da Árvore.



“Dentro da minha flor me escondo...”
Baile das harpias
Em árvores carbonizadas
Rindo do fim
Fumaça sangra
Nosso jardim
A alma do éden
Adoentada.


“Até que os serafins acenem com seus chapéus brancos”
Não nasci para resfriar o mundo
Neste lerdo cortejo de omissões
Estas palavras interditas
Suspensas

Não vim quebrar as pernas do sol
Silenciar cada bemol
Não vim para arrebentar o anzol
Do velho de Hemingway
Sou mar e trovão no coração
Nasci para amar sem lastro
Para dançar no pátio
It is my way

“Doce como o massacre de sóis”
Oito canhões na praça de guerra
Apontam para o peixe
Que traz a paz nas guelras

Quatro gaivotas suicidas
Lambem o babado azulado
Do triste mar-flamenco

Lembro um filme de Babenco:

Ana e o voo
Mariposas no quarto lúgubre
Suas mãos em concha
A esmagar a eternidade insalubre


“A lentidão das palavras do arcanjo ao acordá-la”
O sagrado despe as ilusões
e abraça as árvores mortas
Suas folhas azul esmaecido
qual manto da Virgem de Cambrai
Os ossos das árvores adoeceram
e elas morreram – azuis -
Antes que tornassem brancos
os seus cabelos


“Sinal cifrado para enovelar o divino”
Trinta e dois ventos
da rosa dos ventos
Vinte e um gramas
do peso da alma
Oito países
a comandar a Terra
UM Deus louco
pelas ruas bombardeadas


“O pedigree do mel não diz nada a uma abelha”
O rancor dos homens
Contaminou as flores 
As abelhas
Morreram de cólera
Adocicada
Último zumbido 
Acordou o Sol
Em cadência afinada
Qual canção do Vangelis

Farmacopeia.




A solidão é maior que o mundo inteiro. Raça humana que não se abraça, quando resolve fazer parte da história do outro, a tinta do tinteiro se afasta e as palavras ressecam. Amarelam-se as páginas que se viram feito caras, feito as costas, feito as portas que se batem quando são postas as vidas em aberto. Tudo tem um preço. Nada tem valor. Alguns livros são comprados pela capa, enfeitam prateleiras, viram alimento para traças. Vendem-se mais dramas e catástrofes que as fábulas de cor rosa. A tolice do homem está em querer ler na ficção o que acontece na realidade, porém com doses mais inacreditáveis de sofrimento. Homeopatas! Sangue nos olhos dos outros é refresco de groselha. O pavor se pavoneia em chantagem, abre margem para a comoção. Aplaude a plateia. Vítimas de seus próprios egos, emoção embotada na garganta, chaga sem prego. Jesus nos salvou mesmo ou se perdeu na gaveta dos dízimos? Diz-me o quê em relação à sua existência? Está valendo a pena de morte? A cada febre terçã faz-se uma novena. À própria sorte, que graça teria um bilhete premiado sem que fosse compartilhada a notícia? Escondem-se os abastados dos interesseiros agora por cultivarem a ilusão da jactância, o fato é que os pretensos ricos sentem inveja dos esfarrapados no quesito alma. Ninguém sabe se aturar sozinho, na verdade, ninguém se quer sem o próximo, que quanto mais aproximado está, aí se proliferam os defeitos feito baratas expulsas dos ralos. Quando não, as qualidades são aproveitadas por tempo limitado, manipuladas, pois hoje em dia tudo é reciclável. Poucos não são os rasos. Raros são os maduros sustentáveis.


Refém do chefe, do marido, da mãe, da televisão, do partido, da contrapartida, da contravenção... Viciado em gula, luta no tatame, funkpancadão, aspartame, shake diet, Chuck Norris, cachaça com ou sem limão... Dependente físico da obesidade mórbida, da foda fora do casamento, do ajuntamento falido, do palavrão frente às crianças, da moda em 30, 60, 90 sem entrada e sem juros... Afeito a cheques sem fundo, fundo de poço, ostentação, esteticista, açougue, maltrato animal, agiotagem fatal, cigarros e Marijuana (foi ela quem disse certa vez trajando vermelho até os olhos: - Não se chega ao pó senão por mim). Tarja preta é o remédio para a censura. Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra, pode ser de crack, pode subir o telhado de vidro alheio, pode ser o equivalente em cacos do seu espelho. É de doer o coração dos mais fracos, porque os mais fortes só aprenderam a dormir sob efeito de comprimidos. Por um triz, Rivotril. Uma estaca de vampiro ao menos estanca sangramento. Morre-se de hemorragia interna ou na internação. Aceitamos só visitas íntimas, não aceitamos cartão, a porta da área de serviço está aberta a ladrão de strip poker, negros com micropênis, prostitutas universitárias, freiras lésbicas e padres pedófilos. Não damos crédito à velhice, pois antes enfrentar a cadeira elétrica que a de rodas ou balanço. Vaidade com a idade aumenta. Vamos à queda de braço, que não se dá a torcer. Torcida uniformizada só serve mesmo para bater. Mas temos esperança que a paz um dia venha em cápsulas.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Poema Para o Sono de Marta




Por Hilton Valeriano.

As razões de quem ama
não são argumentos.
Estratagemas para sentimentos
no amor não se pode tê-los.
As evidências de quem ama
são fatos secundários
como as alamedas
no mês de maio.

Os amantes sabem
do improviso
– flor casual do destino.

É possível que o amor seja
mesmo sem a convicção dos teoremas.
Leve – como no sono se propaga
o sonho em Marta.




EPIGRAMA (1)

Marta, para todas as horas possíveis o amor.
Assim o ciclo remissivo das estações
traz à primavera a esperança em flor.


EPIGRAMA (2)

Marta, preciso é o tempo a recobrar sua lição.
Assim a complacência dos gestos e sua missiva.
Circunscrito no horizonte da palavra
o amor é mais que uma definição.


EPIGRAMA (3)

Marta, assim principia o amor:
Inelutável como a aurora,
a luz do Criador.

EPIGRAMA (17)

Marta, não saberia dizer
do amor sua verdade.
Apenas sua condição
e o que desejamos que seja:
dádiva congênere da Natureza!

A lentidão das palavras do arcanjo ao acordá-la.


Por Bárbara Lia.


“A lentidão das palavras do arcanjo ao acordá-la”

O sagrado despe as ilusões
e abraça as árvores mortas
Suas folhas azul esmaecido
qual manto da Virgem de Cambrai

Os ossos das árvores adoeceram
e elas morreram – azuis -
Antes que tornassem brancos
os seus cabelos

“Até que os serafins acenem com seus chapéus brancos”

Não nasci para resfriar o mundo
Neste lerdo cortejo de omissões
Estas palavras interditas
Suspensas

Não vim quebrar as pernas do sol
Silenciar cada bemol
Não vim para arrebentar o anzol
Do velho de Hemingway

Sou mar e trovão no coração
Nasci para amar sem lastro
Para dançar no pátio
It is my way

“Doce como o massacre de sóis”

Oito canhões na praça de guerra
Apontam para o peixe
Que traz a paz nas guelras
Quatro gaivotas suicidas
Lambem o babado azulado
Do triste mar-flamenco
Lembro um filme de Babenco:
Ana e o vôo
Mariposas no quarto lúgubre
Suas mãos em concha
A esmagar a eternidade insalubre


“Dame el ocaso en una copa!”
.
Velhas estradas bifurcadas
Lentas aparições de fantoches
Nas alamedas do nada

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Ossos do Ofício.

Por Carlos Alberto Nascimento.

Um Estrangeiro em Uma Cidade em Movimento

Eu olho para a cidade em que vivo
E não reconheço seu rosto
Talvez por que ela não deve ter um rosto fixo
E sim vários rostos e formas variadas.

Mesmo assim me dói não conhecê-la,
Pois não conheço o nome de suas ruas,
Sinto-me um estrangeiro vivendo neste lugar.

Eu olho para a cidade que me observa
Tão atenta a meus movimentos
Quando caminho sem atenção
Por suas ruas vazias.

Eu defloro a cidade com minha falsa pureza
Sem ter nenhuma pretensão
Em transformar algo de mim em prazer.


Ossos do Ofício

Ela chora de saudade
E clama por uma cidade
Que não nos olha de frente.

Eu me deito no chão
Sinto as pedras e as agulhas
Que aos poucos me penetram
E tornam-se ossos de reserva.

Deito, e lembro de um sonho
Que tive noite passada
E penso em transformá-lo em filme.


Visões

Pedras em meus olhos
Me fizeram ver
Vermes mastigando músculos
E pedaços de cérebro jogados na areia.
A terra apodrece a cada volta
O sol se torna distante
E ao recuar queima pele e cabelos
De seres que não mais respiram.
Tudo se tornou oco e frágil
Tudo se parte como o tempo
Somente o vento permanece sólido
Em minhas mãos.





Res Dubia, Reinaldo!

A lua flutua entre as quatro paredes de meu quarto
Os prédios crescem muros aqui dentro
Crescem alto e eu penso grande.

Jesus cristo me olha e me aponta dois dedos (como se fosse arma)
Eu crio monólogo e digo o que penso
Sinto e sobre todas as perguntas não respondidas,
Ele me observa sem responder
Mas repentinamente diz que tenho que enxergar.

De minha janela vejo que o mar esta fechado para reformas,
Me pergunto que grandes mudanças farão (faremos).
Carros passam rápido
E o verde desliza pela paisagem.
Sinto que um outro mundo está mais próximo de mim agora
Mas revoluções dissolvem-se em meus dedos
Como se fosse água.

Meus amigos estão cada vez mais distantes e sérios
Todos com empregos fixos nos bolsos.
Eu continuo sentado fazendo versos
E me perguntando se isso poderia ser considerado poesia.

Quando Tudo Acabar.


Por Gelmirez Fontes

Dedicatória

Aos que se nutrem de ilusões desfeitas
E de imperfeitas realizações
Dedico a solidão com que te enfeitas,
Alma prenhe de arrítmicas canções...
Aos que procuram, junto à frases feitas,
Esmaecidos ecos de ilusões,
Dedico de minh’alma as mais perfeitas,
Mais insensatas reverberações...
Aos que pressentem dentro de si o intruso
Murmúrio de uma música que insiste
(sem que pra ela se ache qualquer uso)
Dedico esta beleza que ainda existe.
Porque, se pelo belo me conduzo,
Inda não sou completamente triste.



Íntimo Desejo

Quando todos os rios de mim se apartarem
E já não houver mar
Onde eu possa morrer
Então eu quero morrer
Quando as fases da lua não mais me atuarem
E já não houver luar
Para me enlouquecer
Então eu quero morrer
Quando todos os bares se esvaziarem
E já não houver bar
Onde eu possa beber
Então eu quero morrer
Quando todos os loucos enfim se curarem
E um doido não se achar
Para me convencer
Então eu quero morrer.



quinta-feira, 22 de novembro de 2012

ENTRELINHAS DA PERDIÇÃO.




Matilha

Nomeados
os lobos,
desembanhei os caninos
          – incógnitos
e ensaiei a dança
solitária
do uivo
na imensidão austral.



Entrelinhas da Perdição

Farfalha o sargaço
no remanso
desse mar extinto,
despido de surpresas.

Perde-se o sal 
nos lábios
ingênuos 
que recolhem o sabor
da morte
triturada
― pacientemente ―
como uma esperança.



Paranoia

O minuto dividido
em sessenta pressentimentos.



Meu Corpo

Para Berredo de Menezes

Meu corpo
é essa areia
rarefeita
que parte
do deserto
e impregna
as pétalas.

Meu corpo
é um grifo nas dunas
que se desfazem
em Mundo.

Meu corpo
é a velhice de um tempo
desabençoado
pelo silêncio.

Meu corpo
é a textura vulgar
de um remendo
da insensatez.

Meu corpo
é pressentimento
de moeda
que dissolve o pecado.

Meu corpo
é bojo de névoa
ruminada no pasto.

Meu corpo
é a universalidade
de um nada carente
de sentido.

Meu corpo
exilado na descrença
                                jaz
no giral de ofertas
de um supermercado.

O RASURADO AZUL DE PARIS - POEMAS PARA ARTHUR RIMBAUD,






Flor escandalosa


Meu pai sonhava o deserto

E viveu ao lado do amor

Rimbaud sonhava as areias

Também reinventar o amor

Rimbaud viveu no deserto

Meu pai morreu de amor


Meu pai surfava o mar de estrelas

Com um teodolito da cor da destemperança

 - verde oliva que tende ao amarelo –

Quando eu dormia ele soprava

Sementes de poesia

Por cima das minhas cobertas


Rimbaud passava noites inteiras

Regando com um regador de nuvens

Minha alma de fogo e a semente

Nasceu esta flor escandalosa

Misto de estrela e rosa

Da cor dos olhos do amor

E do deserto sonhado

Por meu pai e Rimbaud


Meu pai viveu em poesia

Nunca escreveu um verso

Rimbaud desistiu bem cedo

Meu pai sabia; sabia Rimbaud

O vento que atravessa a cortina

Traz a voz de ambos, mixada:



Ilumine o verbo!

Incendeie a alma!

Faça de corações desertos

Cactos em flor

Sangue em ebulição

*


quando ele corria

pelos telhados de ardósia

as pombas arrulhavam

em ventania

seu casaco - vela sacudida

estremecia

a maré da monotonia



Dans l’air
  

Tínhamos a mesma idade

Quando vimos o mar

Este mistério de impaciência

Tínhamos a mesma impaciência

 – Rimbaud e eu –



Por isto

Pisamos telhados

Ao invés do chão


Por isto

Machucamos nossos amores

Com nossas próprias mãos


Por isto

As velas acabam na madrugada

Antes que o poema acabe


- Por isto, tão pouca a vida para tanta voracidade.



Mar/absinto



Nossos olhos de dezoito anos

acomodaram o mar

Sobrou a maré em torno

um sussurro de conchas

a nos acordar nas noites brancas


Nossos olhos de dezoito anos

beberem do mar/absinto

como ao vinho santo.


Nossos olhos embriagados.

Nossos olhos negros e azulados.

Uma sereia recolhendo a rede

os corações de dois poetas ali

enredados


Nossos olhos de dezoito anos.

Nossas almas milenares.

Nossos amores fracos à soleira da incerteza.

Tanta beleza em ti, Rimbaud!

Tanta ausência em mim!


E nas marquises

bêbados ainda caminham

buscando o sol

que você guardou prá mim

FRIA E RÍSPIDA ELA TE MOVE.


Por Paola Benevides.




Nem Piedade

Por favor, um canhão para aliviar tua dor por mim.
Carrego tanta vontade de te morrer, que vivo mais.
Tens medo do quê? Farei como quem só joga boliche.
Tu: um pino no centro. Eu: dedos cravados na bola.
Concentro e arremesso - simples assim, até caires.
Há outras dores menores, mas te preservo a grande.
O medíocre da história é teu prazer ao mistificar.
Serei ruim com quem reza para minha alma de má fé.
É sempre o inimigo que lava o pé, amigo crucifica.
Finca tua unha postiça na lama agora, muda mulher.
Sente enfeiar, crispa no sol, chora feto e afetos.
Teus descendentes vêm da água dessa infertilidade.
Não temos mais idade para isso de sentir saudades.
Tempo já acabou para quem falta, a espera desiste.


Fria

Dou pedrada em lagoa até ferir o dorso do sapo
(só não virou príncipe, porque falta de beijo magoa)
Sou pedra de gelo quebrada a sorrir dentro do saco
(bem depois de levar umas belas de umas pauladas)
Vampirizaram minha alma e agora estou aflita
Exigem que eu dê meu sangue a troco de nada:
- Nada nessa água até ficar com hipotermia, sua maldita!
Então, eu entro nessa fria e fico calada.



Ríspida

ATO I

Rabisco todas as folhas possíveis de uma resma (500 páginas) por semanas, enquanto aponto o lápis até ficar do curto ao inutilizável. A mão doendo. Separo todas as raspas da fina madeira suja de grafite e as coloco dentro da pia, sem tampa. Ligo a torneira a entupir o cano rapidamente, tudo de propósito, a fim de causar algum estrago. Afinal, hoje em dia tudo é artístico. Sendo dano, torna-se ainda mais convincente. Trago-lhes em lodo, portanto, um banheiro transbordante e absurdo!


ATO II

Quero chutar a canela fina daquela mal-amada com minha perna bonita, toda torneada no gesso, quebrar com a quebrada para ficarmos quites na rasteira. Inchar aqueles olhos fundos na base da porrada, com meu punho a ponto de contrair Lesão por Esforço Repetitivo, só por esporte. Tudo para ela saber que caminhar firme e olhar além, tranquilo, é para os fortes. Ama-se também à ponta-pés e a golpes de vista. Tudo é ensinamento. Se for briga, lamento. A intenção de selarmos a paz cela até o cavalo mais arredio. Que dirá esta égua a me coicear, relinchosa... Aceita!


Sonholenta

Bem que o céu podia se estilhaçar agora no chão só para eu ter o aconchego de um frio natural, sem aquele calafrio forjado de todos os lugares com ar-condicionado, e então embalar meu sono-neném debaixo de cobertas bem grossas.

Queria o afago do vento em meus cabelos feito mão de namorado e meu corpo a roçar o calor do colchão tal um sem-teto descobrindo-se em seu próprio lar telhado.

Aconchego maior esse de concha a abraçar nácar até se transformar em pérola-madre. Mãe é casa onde a gente passou meses a morar, moldar, para depois partir. Mundo é meio de rua, cansa a gente de tanto rodar. O que atenua a vertigem é ter por que andar, mesmo que não se tenha perna nenhuma.

Aqui, ao menos, é permitido sonhar.

DO ATO DE FALHAR.


Por Carlos Alberto Nascimento



O Medo

“Quantos sonhos em sonhos acordo aterrado?”
Lobão

“Em que festa eu serei a despedida?
Em que caminho eu serei o meu atalho?”
José Telles


Onde permaneço em um lugar que mal conheço?
Em que coração habito sem saber que ali fui colocado?
Em que olho estou para ser observado?
Em que poema existo sem saber que ali fui escrito?
Em que quadro vivo sem saber que ali fui pintado?
De que lado estou no qual a escuridão me habita dia e noite?
Que sofrimento sou que coroe algum peito?
Que paixão sou sem sabe que acabei despertando?
E que vida é essa que por mim ainda não foi encontrada?




Um Vampiro Nas tardes Ociosas


Separado por um tempo

Que escore por ponteiros de um relógio

[morto

Atravessando uma tarde de sol negro

Que torna meus olhos escuros,

Caminho pelo dia

Sem grandes preocupações.



Respirando ar cinza

Que deforma minhas narinas e pulmões

Observando as ruínas da cidade,

Percebo

Que os prédios caminham devagar ao meu lado

Junto com o asfalto
Que vagarosamente dissolve-se

E flutua para o céu

Onde futuramente derramará lágrimas que deformará

[minha fase.


Observando a adolescência da tarde,

Percebo que sou um bruto

Em relação às horas

E aos ponteiros do relógio,

Que vagarosamente se mantém distraído

Observando meu cansaço

E meus medos

Em relação à vida.





O Dia Entre Dois Fios do Telefone

Pessoas andam por ruas com os olhos fechados

Como uma marcha sega de sonambulismo,

Carros transformados em armas vagam em pistas

E o sol queima a pele de quem caminha.


A música toca alto no rádio do vizinho

Falando sobre amor e outras tristezas

Sem preocupações sobre o futuro da nação

Ou homens que sentem fome.


Folhas caídas de árvores queimam em pleno meio dia

Misturando-se e sendo transformadas em lixo

O gari que limpa as ruas fala e reclama;

“Que sujeira essa cidade!”

E mentalmente agradece a Deus o emprego que tem.

Generais sentados em cadeiras acolchoadas

Em salões redondos e gigantes com ar refrigerado

Conversam sobre como os tempos estão tediosos,

Então se põem a discutir refletir e planejar

A destruição de um país ou dois

Para matar tempo, tédio, cultura e pessoas.


O dia transcorre normal

Entre os dois fios do telefone.







Do Ato de Falhar


A tarde deita sobre mim

E me sinto incomodado

Com o abraço que o sol me dá,

Folhas verdes

De árvores negras acenam,

Eu nunca respondo por que sou tímido.



Jovens caminham olhando para o horizonte

Moças passam insinuando-se

E eu grito me orgulhando

Por falhar em um poema.


ENSAIO SOBRE O PASSARINHO MAS EU QUERIA MESMO ERA FAZER UMA DECLARAÇÃO DE AMOR.



Por Anna K.



Em minha mão cabia apenas aquele filhote de passarinho e alguns poucos sonhos, aqueles dos quais não conseguia me desvencilhar nesses idos dos dias todos. em forma de concha, em minhas mãos todo o amor do mundo, felicidade libertada prestes a alçar vôo diurno, noturno, madrugada afora e aqui bem dentro o dia raiando como depois dos fogos de artifício do réveillon, como o dia mais esperado do tempo novo após as cidras todas e todos os abraços, os alvoroços e os beijos molhados repletos de entusiasmo.

Deus dentro, me disse e eu só consegui reparar nos olhos brilhantes de quem carrega paixão. pensei no passarinho acolhido e aprisionado na mão, a forma de concha, o calor das linhas táteis da vida, destino, família, amor. teremos cinco filhos, tá escrito bem aqui, entre a minha mão e a tua.

Nossas linhas se cruzaram outra vez, entre o destino e o aprendizado. consigo ler serenidade e bem querer, querer demasiado, querer intenso, querer a eternidade do hoje do amanhã dos dias todos, cabelos brancos e previdência social: eu sou o seu destino.