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domingo, 21 de abril de 2013

O Céu Oceano




Uma nuvem feito pedra
Flutua no oceano calmaria
Enquanto ondas de vento
Quebram nos rochedos de minha alma.

Meu peito é cais aberto
Esperando a chegada de um amor tranqüilo
Que vaga perdido
Sem meu endereço, nem meu destino.

O céu oceano é o que ainda me mantém em terra
Aprisionado por uma promessa
De que se eu ficar parado
O mundo irá girar
E trazer para mim uma promessa antiga.

quinta-feira, 21 de março de 2013

O Primeiro.




Caminhava lento por ruas da cidade. Um cigarro na boca. Perto das 5 horas. Já não tinha um sol tão forte acima de minha cabeça. Caminhava despreocupado, atento por ruas sujas, os pés quase pisando em poças d´água, lama, sujeira nos cantos das calçadas, frutas podres jogadas. Cheiro de mijo. Algumas ruas por onde ando têm cheiro de mijo. Em algumas o cheiro é mais forte. Nesta onde caminho é mais fraco. Mesmo assim ainda dá pra sentir.

Mais um quarteirão, e então passo em frente a uma igreja que nunca entrei. Curioso pensar nos vários lugares nesta cidade formiga formigueiro onde nunca pus os pés. Faço o sinal da cruz e atravesso a rua. A pista molhada e hoje sequer choveu. Cidade suja, calçadas sujas. Dobro a esquina, avisto a casa, agora mais próxima, dou uma última tragada no cigarro, a fumaça sobe transformando-se em nuvem, nevoeiro sobre os olhos. Jogo a ponta do cigarro no chão. Cidade suja.

Atravesso a rua, olho para os lados, não vem carro. Estranho as ruas estarem tão vazias em plena sexta-feira, agora 5 da tarde. Os pés tocam a calçada, o coração dentro do peito dá um soluço. Aproximo-me do portão de ferro quadriculado com pintura branca descascando. Lá dentro uma mulher me vê e vem abrir o portão. Passos arrastando chinela. Um sorriso. Vai abrindo para que eu entre.

-A Kelly está? Pergunto.
-Tá sim, lá dentro. Entra e espera, já vou chamar. Responde com voz natural, despreocupada.

Ela se retira e segue em um corredor. A sala não muito grande. Uma TV no canto, dois sofás formando um L, uma mulher sentada no sofá de dois lugares com as pernas atrepadas em um banquinho, bebe cerveja e assisti TV, me olha e depois volta para a TV. Não demora muito e dos fundos da casa a outra volta arrastando as chinelas.

-Ela já tá vindo. Pode sentar aí, quer uma cerveja? Fala sem olhar para mim.

Respondo que não com a cabeça sem saber se ela viu ou não. Já tinha bebido e hoje meu dinheiro está curto. Sento no sofá de 3 lugares. A mulher senta do lado da outra que bebe cerveja e vê TV. Senta do lado dela e puxa uma serrinha do canto do sofá, e então começa a passar nas unhas.

Não foi difícil encontrar o lugar, já conhecia a rua, conhecia a casa de vista. Nova moradia de Kelly.

Dos fundos da casa ela surge com seu andar mole, um tipo de desfile. Me olha de longe e sorri. Eu levanto quando ela se aproxima. Sorriso em seu rosto.

-Veio cedo, meu amor. Ela fala.

Dou um sorriso para ela.

É que queria ser o primeiro.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

No Ar.


Caros companheiros,

Na tela mais uma edição dessa revista Isso não é uma revista. Essa edição está foda. Não que as outras não estivessem. A cada edição sinto vontade de dizer isso, que está foda, por causa dos colaboradores e seus textos enviados para cá. Fodas. Tem sido bom receber coisas dos amigos e dos colegas de literatura e internet. Fico muito agradecido de receber colaborações inéditas para esse e-zine.

A edição abre com micro-contos enviados por Tiago Velasco. Acredito que o cara tem que ser muito bom, muito esperto para mandar uma narrativa curta, um conto bem pequeno, e te pegar. Tiago consegue, isso é verdade.

Edivaldo Ramos estreia conto aqui no e-zine. "Little Boy" é de sua nova safra de escritos, conto inédito dos dedicados a literatura de terror e suspense que está produzindo calado por ai.

Outro inédito novinho em folha é o conto enviado por Urik Paiva, um de meus contistas prediletos dessa cidade.

Agradeço aos companheiros que participam e você que gasta sua pupila na tela do computador lendo o que escrevemos. Ler em computador é um saco, eu bem sei, mas foi essa a forma que encontrei para chegar o mais longe possível sem que as pessoas tivessem que sair de seus quartos. Então, senta ai e leia.

Carlos Alberto Nascimento - Editor

(Edição preparada ao som de T Rex- The Slider)  

Uma Estrela.





Uma estrela flutuou e entrou pela persiana aberta de minha janela. Uma estrela branca, um floco de neve. Mas como um floco de neve poderia aparecer a essa época do ano, se estamos em pleno verão? Não sei, talvez seja só a madrugada.

Existem tantas coisas que ainda não sei, tantas coisas que estou longe de entender. Levando em conta minha idade já deveria saber de muitas coisas, entende-las melhor. Mas não, passo por essa vida sem dela retirar muitos ensinamentos. O tempo não para, e eu parada no ar sem saber aonde ir.

Semana passada encontrei com um antigo amigo de colégio. Quanto tempo fazia? Sete, treze, noventa anos que tudo tinha passado? . Nem me lembro direito desse tempo. Todos tão juntos, promessas que o tempo não nos separaria, a turma que sempre estaria unida.

O tempo passou e o que aconteceu? Encontro com um ou outro em ocasiões extremamente separadas. Sorrisos, às vezes uma cerveja, um sorvete, uma conversa. Engraçado, sempre algo frio. O tempo passa e leva com ele pedaços de nós.

Meu amigo me disse que estava bem, trabalhando muito, falta de tempo sempre presente, mulher, filhos, casa na praia. – “Qualquer dia apareça, vamos reunir a velha turma! O que anda fazendo?” - O que ando fazendo?! Reunir a velha turma?! – “Vamos marcar um próximo encontro, te apresento meus filhos, minha esposa.” – Provavelmente nunca mais nos veremos, ou quando nos esbarrarmos novamente o tempo terá me levado de sua memória para um já não reconhecimento. O tempo carrega pedaços da alma, espelhos do que se foi.

Acendo um cigarro, sentada na cadeira olhando para a janela com as persianas abertas. Uma lágrima escorre de um olho, não consigo segurar a melancolia. Lentamente outro floco de neve entra por um das persianas abertas, vem flutuando até cair na palma de minha mão. Branco, brilhante, quente. Seria mesmo uma estrela?

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Gêmeos.




Nasceram gêmeos, ligados um ao outro pelo corpo. Na infância um queria brincar com bola, o outro com carrinho. Cresceram então com opiniões diversas, o que um queria, não necessariamente era o desejo do outro.

Na adolescência um apaixonou-se por uma ruiva de cabelos curtos, o outro, por uma loira de cabelos extremamente longos. A loira foi embora, deixando um a sofrer e o outro a lhe enxugar as lágrimas.

Lá pelos trinta, decidiram fazer uma operação para separarem de corpo, pois o convívio já não era tão suportável como antes. Operação feita, cada qual para seu canto, agora eram vidas extremamente divididas.

Mas somente no apartamento vazio, no silêncio pleno onde nenhum barulho era companhia, souberam separadamente que não poderiam viver um, sem a presença e as manias do outro.

Hoje, moram juntos dividindo o mesmo apartamento e o mesmo quarto.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Ossos do Ofício.

Por Carlos Alberto Nascimento.

Um Estrangeiro em Uma Cidade em Movimento

Eu olho para a cidade em que vivo
E não reconheço seu rosto
Talvez por que ela não deve ter um rosto fixo
E sim vários rostos e formas variadas.

Mesmo assim me dói não conhecê-la,
Pois não conheço o nome de suas ruas,
Sinto-me um estrangeiro vivendo neste lugar.

Eu olho para a cidade que me observa
Tão atenta a meus movimentos
Quando caminho sem atenção
Por suas ruas vazias.

Eu defloro a cidade com minha falsa pureza
Sem ter nenhuma pretensão
Em transformar algo de mim em prazer.


Ossos do Ofício

Ela chora de saudade
E clama por uma cidade
Que não nos olha de frente.

Eu me deito no chão
Sinto as pedras e as agulhas
Que aos poucos me penetram
E tornam-se ossos de reserva.

Deito, e lembro de um sonho
Que tive noite passada
E penso em transformá-lo em filme.


Visões

Pedras em meus olhos
Me fizeram ver
Vermes mastigando músculos
E pedaços de cérebro jogados na areia.
A terra apodrece a cada volta
O sol se torna distante
E ao recuar queima pele e cabelos
De seres que não mais respiram.
Tudo se tornou oco e frágil
Tudo se parte como o tempo
Somente o vento permanece sólido
Em minhas mãos.





Res Dubia, Reinaldo!

A lua flutua entre as quatro paredes de meu quarto
Os prédios crescem muros aqui dentro
Crescem alto e eu penso grande.

Jesus cristo me olha e me aponta dois dedos (como se fosse arma)
Eu crio monólogo e digo o que penso
Sinto e sobre todas as perguntas não respondidas,
Ele me observa sem responder
Mas repentinamente diz que tenho que enxergar.

De minha janela vejo que o mar esta fechado para reformas,
Me pergunto que grandes mudanças farão (faremos).
Carros passam rápido
E o verde desliza pela paisagem.
Sinto que um outro mundo está mais próximo de mim agora
Mas revoluções dissolvem-se em meus dedos
Como se fosse água.

Meus amigos estão cada vez mais distantes e sérios
Todos com empregos fixos nos bolsos.
Eu continuo sentado fazendo versos
E me perguntando se isso poderia ser considerado poesia.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

DO ATO DE FALHAR.


Por Carlos Alberto Nascimento



O Medo

“Quantos sonhos em sonhos acordo aterrado?”
Lobão

“Em que festa eu serei a despedida?
Em que caminho eu serei o meu atalho?”
José Telles


Onde permaneço em um lugar que mal conheço?
Em que coração habito sem saber que ali fui colocado?
Em que olho estou para ser observado?
Em que poema existo sem saber que ali fui escrito?
Em que quadro vivo sem saber que ali fui pintado?
De que lado estou no qual a escuridão me habita dia e noite?
Que sofrimento sou que coroe algum peito?
Que paixão sou sem sabe que acabei despertando?
E que vida é essa que por mim ainda não foi encontrada?




Um Vampiro Nas tardes Ociosas


Separado por um tempo

Que escore por ponteiros de um relógio

[morto

Atravessando uma tarde de sol negro

Que torna meus olhos escuros,

Caminho pelo dia

Sem grandes preocupações.



Respirando ar cinza

Que deforma minhas narinas e pulmões

Observando as ruínas da cidade,

Percebo

Que os prédios caminham devagar ao meu lado

Junto com o asfalto
Que vagarosamente dissolve-se

E flutua para o céu

Onde futuramente derramará lágrimas que deformará

[minha fase.


Observando a adolescência da tarde,

Percebo que sou um bruto

Em relação às horas

E aos ponteiros do relógio,

Que vagarosamente se mantém distraído

Observando meu cansaço

E meus medos

Em relação à vida.





O Dia Entre Dois Fios do Telefone

Pessoas andam por ruas com os olhos fechados

Como uma marcha sega de sonambulismo,

Carros transformados em armas vagam em pistas

E o sol queima a pele de quem caminha.


A música toca alto no rádio do vizinho

Falando sobre amor e outras tristezas

Sem preocupações sobre o futuro da nação

Ou homens que sentem fome.


Folhas caídas de árvores queimam em pleno meio dia

Misturando-se e sendo transformadas em lixo

O gari que limpa as ruas fala e reclama;

“Que sujeira essa cidade!”

E mentalmente agradece a Deus o emprego que tem.

Generais sentados em cadeiras acolchoadas

Em salões redondos e gigantes com ar refrigerado

Conversam sobre como os tempos estão tediosos,

Então se põem a discutir refletir e planejar

A destruição de um país ou dois

Para matar tempo, tédio, cultura e pessoas.


O dia transcorre normal

Entre os dois fios do telefone.







Do Ato de Falhar


A tarde deita sobre mim

E me sinto incomodado

Com o abraço que o sol me dá,

Folhas verdes

De árvores negras acenam,

Eu nunca respondo por que sou tímido.



Jovens caminham olhando para o horizonte

Moças passam insinuando-se

E eu grito me orgulhando

Por falhar em um poema.