Resolvi me perder e não falar sobre você durante
muito tempo. E em contrapartida, ser mais um a exagerar nos cigarros, nas
drogas, num círculo de amigos disfuncionais e com tendências destrutivas. Assim
fui eu na noite enquanto te observava além de si mesmo, aquela solidão ao redor
da mesa enquanto que, pra disfarçar o tempo, eu fingia escrever uma mensagem de
vida ou morte no celular. Mas tudo pareceu em vão, você nem sequer decifrou o
jogo cujo ápice aconteceria em três horas. A cama onde deitaríamos lânguidos
numa paisagem erguida além de nossas neuroses e horários a cumprir. Nos
desencontramos antes mesmo de qualquer arrependimento. Aí você foi embora, pedi
outra bebida, cruzei as pernas numa nova tentativa de glória, medo, loucura e
redenção.
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domingo, 21 de abril de 2013
Microcontos.
Por Tiago
Velasco
Empire State
Era a primeira vez em Nova York. Lua de mel. Depois
de três dias, ela disse que o casamento foi um engano. Marcou a passagem de
volta para a noite. Só a dela. Ele saiu desesperado pelas ruas de Manhattan.
Adentrou a portaria do prédio. Uma fila enorme aguardava o elevador. Estava com
pressa. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10 degraus, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18,
... ,93, 94, 95 degraus, 96, 97, 98, 99,
..., 431, 432, 433, o coração havia de suportar, 434, 438, ... 918, 919, só
mais alguns, 920, 921, 922, ..., 1573, arf, arf, arf. Decepcionou-se com as
grades até o teto.
Top model
Desfilava nas passarelas de Paris, Nova York e Milão. Os principais estilistas faziam questão de que ela vestisse seus looks. Não assinava contrato de exclusividade. Diziam que tinha um caminhar único. E uma beleza exótica. Um rosto indecifrável era o elogio máximo. Inexpressiva, fazia a roupa brilhar. Morreu sem uma ruga.
Reflexo
– Por que você me ama?
– Porque você me ama!
quinta-feira, 21 de março de 2013
O Primeiro.
Caminhava lento
por ruas da cidade. Um cigarro na boca. Perto das 5 horas. Já não tinha um sol
tão forte acima de minha cabeça. Caminhava despreocupado, atento por ruas
sujas, os pés quase pisando em poças d´água, lama, sujeira nos cantos das
calçadas, frutas podres jogadas. Cheiro de mijo. Algumas ruas por onde ando têm
cheiro de mijo. Em algumas o cheiro é mais forte. Nesta onde caminho é mais
fraco. Mesmo assim ainda dá pra sentir.
Mais um
quarteirão, e então passo em frente a uma igreja que nunca entrei. Curioso
pensar nos vários lugares nesta cidade formiga formigueiro onde nunca pus os
pés. Faço o sinal da cruz e atravesso a rua. A pista molhada e hoje sequer
choveu. Cidade suja, calçadas sujas. Dobro a esquina, avisto a casa, agora mais
próxima, dou uma última tragada no cigarro, a fumaça sobe transformando-se em
nuvem, nevoeiro sobre os olhos. Jogo a ponta do cigarro no chão. Cidade suja.
Atravesso a rua,
olho para os lados, não vem carro. Estranho as ruas estarem tão vazias em plena
sexta-feira, agora 5 da tarde. Os pés tocam a calçada, o coração dentro do
peito dá um soluço. Aproximo-me do portão de ferro quadriculado com pintura
branca descascando. Lá dentro uma mulher me vê e vem abrir o portão. Passos
arrastando chinela. Um sorriso. Vai abrindo para que eu entre.
-A Kelly está?
Pergunto.
-Tá sim, lá
dentro. Entra e espera, já vou chamar. Responde com voz natural, despreocupada.
Ela se retira e
segue em um corredor. A sala não muito grande. Uma TV no canto, dois sofás
formando um L, uma mulher sentada no sofá de dois lugares com as pernas
atrepadas em um banquinho, bebe cerveja e assisti TV, me olha e depois volta
para a TV. Não demora muito e dos fundos da casa a outra volta arrastando as
chinelas.
-Ela já tá vindo. Pode sentar
aí, quer uma cerveja? Fala sem olhar para mim.
Respondo que não
com a cabeça sem saber se ela viu ou não. Já tinha bebido e hoje meu dinheiro
está curto. Sento no sofá de 3 lugares. A mulher senta do lado da outra que
bebe cerveja e vê TV. Senta do lado dela e puxa uma serrinha do canto do sofá,
e então começa a passar nas unhas.
Não foi difícil encontrar o
lugar, já conhecia a rua, conhecia a casa de vista. Nova moradia de Kelly.
Dos fundos da
casa ela surge com seu andar mole, um tipo de desfile. Me olha de longe e
sorri. Eu levanto quando ela se aproxima. Sorriso em seu rosto.
-Veio cedo, meu
amor. Ela fala.
Dou um sorriso
para ela.
É que queria ser
o primeiro.
A Herança Ingrata.
A porta abre
fazendo um rangido que assusta os gatos. Ela entra com uma tigela cheia de
leite até a borda, a mesma tigela que tinha amanhecido seca.
-A benção, minha
vó.
-Deus lhe
abençoe, minha netinha.
O tom de pele
dela é diferente do meu, eu sou branca; pálida quando passo o dia em casa e
rosa quando tomo sol. A cor da pele da minha neta eu não sei, é algo entre o
tom de pele que predomina entre os indianos e o que predomina entre os
africanos. O pai da minha neta é negro, a minha filha era branca. A menina
nasceu então com uma cor intermediária entre os dois.
Ela cuida de mim
e dos meus gatos. Num futuro próximo morrerei, daí minha neta passará a cuidar
somente dos meus gatos. Até que, de saudade, cada um dos meus gatos vá morrendo
também e minha neta possa viver sem essa herança ingrata. Pois sei que essa
menina não gosta de gatos, ela cuida deles para me fazer bem, para cuidar de
mim.
-Já comeu hoje,
voinha? Eu deixei um bolo de milho na mesa e acho que a senhora nem triscou
nele!
-Comi do bolo,
sim, tava bom.
-Mas vó, o bolo
tá lá, inteirinho! A senhora nem comeu, não, vou trazer aqui um pedaço!
Ela sai do
alpendre e vai na cozinha buscar o bolo. A verdade é que não comi do bolo, eu
menti. Eu minto, minto sem perceber, minto para não discutir, minto para poupar
palavras. É tão mais fácil, tira um peso enorme dos ombros. Acho que quando a
gente chega numa idade a morte dá um tapinha nas nossas costas e pergunta:
‘você vai querer ser um velho calminho e silencioso ou vai querer ser daqueles
que dão palpite em tudo?’ Eu escolhi ser uma velha tranquila, resignada, de
poucas e serenas palavras.
A minha neta
aparece de volta com um pedaço de bolo e o traz até a cadeira de balanço onde
estou sentada. O bolo é bom, mas não tenho fome. Se eu tivesse fome, comia o
bolo inteiro, mas não. Ela não sabe que eu minto por uma comodidade estranha,
acha que eu perdi a lucidez. Ela me olha com um uns inquisidores olhos negros,
me assiste comendo, para ver se eu como tudo. E como os olhos dela brilham, são
pretos, duas bilas escuras e brilhantes e me olham e me dão medo. Ela parece a
minha mãe. Mas a minha mãe era branca e tinha os olhos verdes que eu não
herdei.
-Comi já, leva
aqui o prato – e ela pega o prato das minhas mãos com medo de quebrar (os
pratos ou as minhas mãos, não sei).
-A senhora devia
se cuidar mais, ver se come mais.
-Não preciso me
cuidar, pois já tenho você que cuida de mim, Sebastiana.
-Meu nome é
Lívia, vovó.
-Mas o nome da
minha mãe é Sebastiana.
Minha netinha
perde o olhar no chão e leva o prato para a cozinha. Eu não menti, dessa vez
não foi por comodidade. Eu me enganei, esqueci, troquei os nomes. Ela agora
sabe, tem a confirmação, que fiquei gagá. E eu, com o pouco de lucidez que
tenho me dou conta que estou ficando senil. É tão triste chorar e lembrar dos
olhos azuis da minha mãe e dos negros e inquisidores da minha neta e não querer
esquecê-los, jamais.
E depois, num lapso
da memória, recordar que os olhos da minha mãe eram verdes e não azuis.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Microconto.
Por: Tiago Velasco.
Memória ocular
O celular vibrou. Mensagem de texto. Apertei o
botão. “Vc eh mto ciumento. Nao aguento mais esses ataques no meio da rua. Não
respeita ngm. Chega. Pode apagar o meu número do seu cel e me tirar do seu
feice. Vc jah eh passado. Acabou de vez.” Dei mais alguns passos olhando para a
tela do celular, de cabeça baixa. As pessoas na calçada desviavam para não
trombar comigo. Pensei em responder. Cheguei a digitar as primeiras palavras.
Desisti. Eu nem tinha namorada.
Microconto
Há quem anote pequenos
trechos de histórias em cadernos para depois escrever crônicas, contos ou
romances. Eu me dou por satisfeito.
Memória ocular
Operou a vista. Da
miopia, sobrou apenas o tique de ajeitar os óculos sobre o nariz.
Mundo
animal
Primeiro foi um porco. Patos e galinhas em
seguida. Os jacarés do mangue não deixavam passar nada. Tinham sonhos
ambiciosos. Os bracinhos e perninhas das crianças que brincavam próximas à vala
negra. Os dedinhos das menorzinhas enchiam as bocas dos répteis de saliva. O
caviar que compensa o mau cheiro da região. Os jacarés sabem esperar. Parados,
quase mortos. Economizam energia para o bote certeiro. Delícia. E pensar que
antes era tudo um matagal só. Bendito progresso.
A
Noiva
Véu, grinalda, chuva de
arroz. Jogou o buquê para a futura mulher de seu marido.
Rompimento
Uma Estrela.
Por: Carlos Albert Nascimento.
Uma estrela flutuou e entrou pela
persiana aberta de minha janela. Uma estrela branca, um floco de neve. Mas como
um floco de neve poderia aparecer a essa época do ano, se estamos em pleno
verão? Não sei, talvez seja só a madrugada.
Existem tantas coisas que ainda não sei,
tantas coisas que estou longe de entender. Levando em conta minha idade já
deveria saber de muitas coisas, entende-las melhor. Mas não, passo por essa
vida sem dela retirar muitos ensinamentos. O tempo não para, e eu parada no ar
sem saber aonde ir.
Semana passada encontrei com um antigo
amigo de colégio. Quanto tempo fazia? Sete, treze, noventa anos que tudo tinha
passado? . Nem me lembro direito desse tempo. Todos tão juntos, promessas que o
tempo não nos separaria, a turma que sempre estaria unida.
O tempo passou e o que aconteceu?
Encontro com um ou outro em ocasiões extremamente separadas. Sorrisos, às vezes
uma cerveja, um sorvete, uma conversa. Engraçado, sempre algo frio. O tempo
passa e leva com ele pedaços de nós.
Meu amigo me disse que estava bem,
trabalhando muito, falta de tempo sempre presente, mulher, filhos, casa na
praia. – “Qualquer dia apareça, vamos reunir a velha turma! O que anda
fazendo?” - O que ando fazendo?! Reunir a velha turma?! – “Vamos marcar um
próximo encontro, te apresento meus filhos, minha esposa.” – Provavelmente
nunca mais nos veremos, ou quando nos esbarrarmos novamente o tempo terá me
levado de sua memória para um já não reconhecimento. O tempo carrega pedaços da
alma, espelhos do que se foi.
Little Boy.
Por
Ed de Vortex
-
Foi assim mesmo- disse o enfermeiro- sem parágrafos. Insano como se esperava,
mas não dá pra negar, doutor, faz sentido de alguma forma.
O
doutor lia e balançava a cabeça pensativo ao concordar. Tudo estava registrado
em três fotografias. Uma prova irrelevante para a Justiça. Mas só entre os
dois, a explicação para tudo. Toda a tragédia.
O
enfermeiro fizera questão de que tudo estivesse legível ao fotografar o texto
na parede do quarto do rapaz, pois sabia que estava tudo ligado. O texto, as
atitudes. Um rapaz que conseguiu mudar muita coisa, embora tenha feito pelos
meios mais errados. Pela primeira vez, em quinze anos de profissão, o doutor
pensava agora se não dera um diagnóstico incorreto.
-
Encontrou mais alguma coisa lá?- perguntou após um suspiro cansado. Foram dois
dias estafantes. Corridos. Estava todo mundo cansado. Ele via no rosto do
enfermeiro a vontade de fazer algo mais, mas o melhor mesmo seria descansar.
Não havia mais nada que se pudesse fazer. Apocalipse é apocalipse. Ponto.
-
Não, doutor. - respondeu o enfermeiro. - Nada mais que a polícia ou qualquer um
de nós já não tenha visto.
O
doutor balançou a cabeça mais uma vez. Os dois fizeram um longo silêncio. O
enfermeiro apanhou da mesa as fotos mais uma vez. Olhou-as com cuidado. Leu o
texto inteiro novamente.
-
Anarquista... - sussurrou.
Com
a cabeça apoiada na mão, o doutor que se balançava de um lado para outro na
cadeira jogou sobre ele um olhar inquisitivo.
-
Isso aqui é anarquismo puro, doutor. - disse o enfermeiro ao perceber a dúvida
no olhar do outro. – Quer dizer... aposto que sei o que o senhor está pensando
agora. Mas não tinha como a gente saber. O senhor não errou. Ele só não devia
estar aqui. Como nenhum dos outros. O lugar deles não é aqui. Não importa o que
ele tenha feito. Esse lugar não é adequado pro que a gente tá tentando fazer.
-
É mesmo... - anuiu o doutor num tom cansado. - É mesmo.
O
enfermeiro colocou de volta as fotos sobre a mesa do doutor. Recostou-se por um
momento apenas para conferir se ele estava realmente bem. Viu um semblante
tomado pela culpa. Para essa doença não havia remédio algum. E até inventarem a
máquina do tempo, continuaria assim.Bateu as mãos nos braços da cadeira e
levantou-se num movimento rápido.
-
Bem, acho que já vou, doutor. Se precisar de alguma coisa... Alguém pra
conversar. Pode ligar. Moro no São Cristóvão. Minha esposa disse que está tudo
bem por lá. Ninguém foi atingido na periferia. Se quiser um lugar mais
tranquilo pra dormir...
-
Ok, obrigado mesmo. - disse o doutor. - Também vou pra casa. Estou quebrado.
Por dentro e por fora. Bem que eu gostaria de ter uma esposa me esperando. Sã e
salva. – disse por fim com um risinho insosso.
O
enfermeiro não conseguiu depurar a comiseração do olhar que lançou para o
amigo. Virou-se e saiu.
-
Você poderia dizer agora. - disse o doutor antes que o enfermeiro fechasse a
porta.
-
Hã? – disse o enfermeiro colocando apenas metade do corpo de volta.
-
Você disse que passaria na minha cara meu erro. Estava certo o tempo todo. Eu
lhe devo desculpas.
-
Não pense nisso. Como eu disse, não tinha como saber. Eu segui minha intuição
apenas. Somos profissionais da saúde. Trabalhamos com evidências, não com
intuição. Eu só estava nervoso, não faria isso jamais.
Os
dois estavam sendo sinceros e percebiam isso em seus olhares e palavras.
-
Eu sei... - disse o doutor- eu sei.
O
outro fez um sorriso com o canto da boca. Daquele tipo que sai com o maior
esforço em situações que pedem um sorriso justamente quando não há força nem
motivo para tal. Pelo enfermeiro ter conseguido dando seu máximo, o doutor
agradeceu. Mas sabia que o amigo estava sendo apenas generoso.
Quando
a porta se fechou, o doutor levantou-se e olhou as fotos sobre a mesa. Afastou
as três que foram trazidas pelo enfermeiro. Três fotografias que eram partes
complementares de um texto escrito na parede com giz de cera molhado. Abaixo
delas estavam outras. As que deveria entregar à polícia. Roupas de funcionários
do hospital jogadas num canto de parede da ala norte. Portões do corredor
arrebentados pelo lado de fora. As provas de que o paciente havia recebido
ajuda de pessoas externas à equipe. Os donos dos uniformes foram encontrados
amarrados no canteiro de obras ao lado do hospital. Na verdade um terreno cheio
de entulho que o governo se comprometeu a retirar, mas nem isso nem as obras
haviam começado em dois anos e os pacientes continuavam apertados em quartos
pequenos, mal iluminados e com paredes sujas. Quartos como o do paciente em
questão.
Quando
chegou ao hospital, a única pessoa com quem o rapaz conseguia se comunicar era
com o enfermeiro. Recusava-se a dizer sequer uma palavra a médicos, técnicos ou
qualquer outro funcionário. De alguma forma percebia nele a capacidade de
entender coisas que deveriam ser ditas a um número maior de pessoas. E não era
para menos. “Anarquista”. Sim, o enfermeiro entendia. Havia diálogo ali. Pena
que o doutor não deu ouvidos quando o enfermeiro avisou que aquele paciente era
diferente. Inteligente demais. De família rica. Típico caso de jovem revoltado
que desafia o pai empresário e acaba no hospital psiquiátrico. “Drogas demais”,
alegou o segurança do pai quando o veio internar. Estava muito agitado.
“Precisa de uma camisa de força!”, disse o brutamonte. O enfermeiro pôs isso no
prontuário também.
Dois
meses de internação. Não era violento, muito pelo contrário. Parecia
completamente normal. Mas aquele olhar. Não era dissimulação, nem ódio, nem
loucura. Era um misto de tudo isso. Demorou em entender da forma mais dura que
o nome daquilo era obstinação. Tomava normalmente os medicamentos. Até entendia
deles. Tranquilizantes e moderadores do humor. Participava das terapias de
grupo. Fazia os passarinhos de papel da terapia ocupacional e conversava com os
outros pacientes, os mais e os menos normais com a mesma paciência e respeito.
E escrevia. Muito. Dia e noite em um bloquinho de notas que sumiu junto com
ele.
“Ele
precisa ir para outro lugar.” Dizia o enfermeiro. “Alguma coisa é verdade ali.
Ele não fez o que fez num delírio”. Mas
o doutor insistira no diagnóstico. Abriu o prontuário que jazia junto às fotos
e leu sua parte das anotações:
Código
de Classificação de Doenças F 20.0: Esquizofrenia Paranoide. Sintomas
produtivos: alucinações visuais e auditivas. Mania de perseguição. Imagina
fazer parte de um grupo revolucionário que tem como objetivo iniciar uma nova
sociedade. Comunicação seletiva. Sintomas depressivos. Agressividade
esporádica. Internado pelos próprios familiares após roubar grande soma em
dólares do próprio pai. Registros encontrados no quarto do paciente revelam que
o objetivo do roubo seria a compra de artefatos nucleares por meio de contatos
com grupos fundamentalistas muçulmanos no Oriente Médio. Soma subtraída
conduzida a paradeiro ainda não identificado.
Fechou
o prontuário e jogou-o sobre a mesa. Apanhou as três fotos do texto da parede e
pregou-as com tachinhas no flanelógrafo atrás da mesa na ordem em que se seguia
o escrito. Aquele texto lhe condenava secretamente. Mas tinha a certeza de que
condenava a todos. Todos mesmo, toda a Humanidade. Desde o início dos tempos.
Desde que o Homem é capaz de registrar seus feitos. Desde que é capaz de
sobrepor sua dominação à natureza e a seus semelhantes mais fracos.
Foto 1:
“Eu não posso dizer o
que vem depois, mas antes de melhorar, a coisa vai piorar muito. E esta não é
uma perspectiva pessimista. Muito pelo contrário. A força destruidora é também
uma força criadora. É necessário que se desfaça tudo que está aí. A política, o
modo como os poderosos mantêm a estrutura parasitária da sociedade sustentada
pelo trabalho da maioria mais pobre e desprovida. Não haverá perfeição. A
Humanidade dificilmente verá uma forma de organização na qual o respeito e a
compreensão completa predominem nas relações entre as pessoas. A minha ideia é
que isso possa se concretizar em pequenos grupos que estabeleçam o compromisso
de manterem-se íntegros em si e não se agridam mutuamente. Parece uma
organização tribal, o que dá a ideia de que a paz verdadeira somente poderá ser
alcançada quando a Humanidade assumir que o progresso tecnológico precise
sofrer uma desaceleração de radical severidade.”
Foto 2:
“É exatamente isso. O
progresso científico avança em uma velocidade vertiginosa. Quase não percebemos
a relevância de uma descoberta ou invenção antes que a próxima seja anunciada.
Nesse sentido, é necessário que haja a consciência coletiva de que já possuímos
considerável nível de desenvolvimento e que devemos adotar uma postura mais
reflexiva, concentrando esforços na organização social, de modo a que possamos direcionar
as formas de avanço tecnológico de maneira mais lúcida e integrada, em que
todas as pessoas tenham conhecimento e acesso ao recurso criado e possam
contribuir para que ele possa ser posto em prática a fim de produzir um
benefício que alcance cada membro da coletividade. Pequenos grupos. A evolução
da Humanidade não é baseada na capacidade orgânica de resistir a uma condição
ambiental adversa.”
Foto 3:
“Mas sim baseada na
capacidade de manter um status
pacífico em uma organização igualitária na qual cada pessoa é provida dos
recursos necessários à sua subsistência, lazer, satisfação intelectual e
espiritual, com liberdade para produzir e expressar ideias e que estejam em
total e voluntária comunhão com o grupo, senão voluntariamente, sozinho, mas que
não haja qualquer autoridade, a não ser sua própria compreensão, que possa
regular ou definir sua conduta e suas escolhas. Essa capacidade, aliada à
vontade de relacionar-se de forma sustentável com a Natureza definiria um novo
Ser Humano. Não posso dizer o que vem depois. Mas o que vier tem início hoje.
Ass.: Little Boy”.
Deveria
ter ouvido melhor o amigo. Deveria ter ouvido melhor seu paciente. Grande
médico. Logicamente ninguém colocaria a culpa nele. Sua carreira estava
intacta. A cidade não. Longe disso. O rapaz fora resgatado do hospital. Seu
diagnóstico equivocado não determinava que um dia os amigos “imaginários” dele
fossem render funcionários do hospital e retirá-lo de lá como se faz com
traficantes em delegacias. Não era culpa de ninguém. Essa era a versão oficial.
Mas a versão de sua consciência o condenava. O Centro de Fortaleza e todos os
bairros ao redor foram varridos do mapa por uma bomba nuclear de fabricação
artesanal. 22 mil pessoas mortas em segundos. 120 mil pessoas feridas pela onda
térmica. Uma nuvem radioativa se espalhava naquele momento por todo o Ceará e
oceano afora. O pulso eletromagnético colocava em pane a comunicação à
distância.
Não era culpa de ninguém. Mas o rapaz tinha razão. Era culpa de todo mundo. Pensando nessas coisas o doutor deixou-se cair novamente na cadeira. Olhou as fotos no quadro. Depois baixou a cabeça e chorou. Apocalipse é apocalipse. Ponto.
Django, um encontro pela palavra.
Por: Urik Paiva
Um tarde quente
no meu quintal; o cheiro do churrasco se mistura com o da cerveja. Recebo um
SMS de David dizendo de um engarrafamento quilométrico, ainda vai demorar um
bocado. Quem bate na porta é Quentin, com dez longnecks dentro
de um saco. Ele diz que eu estou suado pra caralho, man. Pergunta
do belga, que está tirando uns sons da guitarra na cozinha enquanto espera o
baião ficar pronto. Quando ele disse que ia compor uma canção chamada Dr.
Schultz, na noite anterior, o outro Django riu. Por falar nele, ele está agora
está no aeroporto, embarcando Broomhilda.
O calor está de
matar e nós bebemos mais cerveja. Quentin joga molho de pimenta na carne e diz
que se o churrasco não nos atacar vai ficar muito gostoso. Sinceramente, não
sei se é uma piada, mas rio como se fosse. Django surge com uma panela de
baião-de-dois, sua guitarra e três melodias inéditas para a tarde,
os standards da nossa tarde, brinca.
Uma tarde quente
feito o deserto. Mas estamos felizes e mostramos os dentes muitas vezes. Não
ficamos constrangidos quando o silêncio é distribuído entre todos, porque
partilhamos de evidente intimidade. Então Quentin diz algo engraçado e
iniciamos um debate qualquer; que mesmo sobre assassinatos perversos se torna
divertido. Django passa as mãos sobre a guitarra e até o cheiro do churrasco se
cala para ouvir: Allof
me seguida
de The
man I love.
Alguém irrompe
pelo quintal com um wow.
Mesmo sem o gatilho dos olhos, sabemos que é Django Freeman. Ele se junta a
nós, morrendo
de sede, caralho. Quando
Django e Django se chamavam, e ficavam se elogiando jocosamente com você é o melhor, nós ríamos demais.
Já estávamos
bêbados quando David, Vincent, Jimmy e Tommy chegaram. Eles também estavam;
sabendo do engarrafamento, compraram muitas cervejas e ficaram bebendo no
carro; aqui estão, rindo como loucos.
Os vizinhos já
virão reclamar, acredito, porque todos falam muito alto. Quentin pega uma
digital e nos filma ora com a boca cheia de carne ora jogando cerveja uns nos
outros. Django oferece sua SelmerMaccaferri para Vincent, como um desafio. Ele
não fez feio tocando Firewater, mas
não se tratava de um bruxo como o belga. Quentin também se aproveitou do
instrumento, fazendo-se ouvir algo italiano, Morricone talvez.
Eu olhei para
todos e respirei um ar muito satisfeito.
Num certo
momento, fomos todos distraídos por várias batidas nervosas na porta. Eram
militares que não aceitaram negativas e entraram casa adentro, vasculhando tudo.
Não interessava a Djangoo que estavam procurando. Ele sacou seu revólver e deu
conta de um por um dos caras. Tínhamos sangue por todos os lados, mas nenhum
dos nossos ficou ferido.
Pela porta
aberta passou um homem aflito que, antes de levar um tiro, pediu desculpas pelo
incômodo; os soldados estavam procurando por ele, mas não procurarão
mais, como tratou de explicar Django, ainda de arma em punho.
Reinhardt acalma
os ânimos, apresentando-se ao estranho. Meu nome é João Goulart, mas podem
me chamar de Jango, pois, já que me salvaram, são meus amigos. Sorrimos
aliviados. Django,
mas com o d invisível,
brincou Tommy, enquanto Jimmy deu uma cerveja ao mais novo do grupo. Ele
relaxou antes de contar que talvez tivesse apenas aquela tarde de vida, porque muitos
soldados estavam em seu encalço; todos do
país, acrescentou rindo. Fizemos um silêncio emocionado quando Freeman
disse que os mataria sozinho.
Eu disse que se
Jango tinha apenas aquela tarde, que a tivesse da melhor forma. Bebemos e
comemos bastante até que chegou a noite e depois o dia novamente.
*Jean Reinhardt, artisticamente
conhecido como DjangoReinhardt foi
um guitarrista de jazz belga, nascido em 1910 e falecido em 1953.
*Django
Freeman é o protagonista do filme DjangoUnchained,
de 2012, dirigido por Quentin Tarantino.
*DjangoDjango
é uma banda londrina de rock, formada em 2009 por David Maclean, VicentNeff,
Jimmy Dixon e Tommy Grace.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
Na Academia.
Por Ismael Angelus
Chegando na academia o novo personal trainer
vem até mim:
— Bom senhor Angelus, eu atualizei o seu programa que por acaso já deveria ter mudado desde o dia 16 de Dezembro.
— Ãhn, tudo bem.
— Venha comigo, vou lhe mostrar como executar os novos exercícios.
Eis que ele me conduz até um par de halteres pesando juntos possivelmente uns 200 kilos...
— Tome, agora segure-os e levante flexionando dessa maneira.
— Hein?! Você só pode estar brincando comigo!
— Como assim?
— Não tem como eu levantar essa porra! Olha pra mim!
— Qual o problema? Observe, é fácil.
— Claro que é fácil! Você é como o Hulk sem a tinta verde, enquanto eu pareço uma minhoca com AIDS!
— Deixe de bobagem, é claro que consegue.
— Cara, o único jeito de eu levantar isso é se você me arranjar uma lata de espinafre e assobiar pra mim a música tema do POPEYE!
— Acabou a conversa, tome.
— Bom senhor Angelus, eu atualizei o seu programa que por acaso já deveria ter mudado desde o dia 16 de Dezembro.
— Ãhn, tudo bem.
— Venha comigo, vou lhe mostrar como executar os novos exercícios.
Eis que ele me conduz até um par de halteres pesando juntos possivelmente uns 200 kilos...
— Tome, agora segure-os e levante flexionando dessa maneira.
— Hein?! Você só pode estar brincando comigo!
— Como assim?
— Não tem como eu levantar essa porra! Olha pra mim!
— Qual o problema? Observe, é fácil.
— Claro que é fácil! Você é como o Hulk sem a tinta verde, enquanto eu pareço uma minhoca com AIDS!
— Deixe de bobagem, é claro que consegue.
— Cara, o único jeito de eu levantar isso é se você me arranjar uma lata de espinafre e assobiar pra mim a música tema do POPEYE!
— Acabou a conversa, tome.
Ele me entrega os dois pesos e automaticamente
minha cabeça fica mais vermelha que um pirulito de morango.
— Viu como não pesa tanto?
— Essa droga pesa mais que consciência de pedófilo!
— Deixe de reclamar e comece a contagem.
— Um...
— Isso, continue.
— Dois...
— Vamos lá, você vai conseguir.
— Dez... — digo enquanto largo os pesos.
— Negativo, nada disso.
— O que quer dizer?
— Nada de parar em "três".
— Eu parei no dez...
— Não. Parou no três.
— Você deve ter se distraído... Às vezes eu também tenho lapsos de tempo assim, sabe?
— De jeito nenhum. Pode recomeçar.
— Foi a minha ex-mulher quem te contratou para me matar?
— Você já foi casado?
— Graças à Zeus não, mas tive uma amostra do negócio...
— E como foi?
— Digamos que a coisa toda foi quase tão divertida quanto um piquenique no inferno...
— Sinto muito por isso, só que agora acabou a enrolação.
UMA HORA E MEIA DE TORTURA DEPOIS...
- Tem mais algum pra fazer ou já posso ir pra casa e amputar meus braços?
- Não, encerramos por hoje. Amanhã vamos malhar "perna".
- OH MY DOG!
[Essa é a parte em que você depois de ler essa maravilhosa historinha se pergunta: "e como diabos você ainda tem condições de mexer os braços para digitar isso tudo?". Bom, eu não quero me gabar, mas eu e o Kid Bengala temos algo em comum...]
— Viu como não pesa tanto?
— Essa droga pesa mais que consciência de pedófilo!
— Deixe de reclamar e comece a contagem.
— Um...
— Isso, continue.
— Dois...
— Vamos lá, você vai conseguir.
— Dez... — digo enquanto largo os pesos.
— Negativo, nada disso.
— O que quer dizer?
— Nada de parar em "três".
— Eu parei no dez...
— Não. Parou no três.
— Você deve ter se distraído... Às vezes eu também tenho lapsos de tempo assim, sabe?
— De jeito nenhum. Pode recomeçar.
— Foi a minha ex-mulher quem te contratou para me matar?
— Você já foi casado?
— Graças à Zeus não, mas tive uma amostra do negócio...
— E como foi?
— Digamos que a coisa toda foi quase tão divertida quanto um piquenique no inferno...
— Sinto muito por isso, só que agora acabou a enrolação.
UMA HORA E MEIA DE TORTURA DEPOIS...
- Tem mais algum pra fazer ou já posso ir pra casa e amputar meus braços?
- Não, encerramos por hoje. Amanhã vamos malhar "perna".
- OH MY DOG!
[Essa é a parte em que você depois de ler essa maravilhosa historinha se pergunta: "e como diabos você ainda tem condições de mexer os braços para digitar isso tudo?". Bom, eu não quero me gabar, mas eu e o Kid Bengala temos algo em comum...]
Gêmeos.
Nasceram gêmeos, ligados um ao outro pelo
corpo. Na infância um queria brincar com bola, o outro com carrinho. Cresceram
então com opiniões diversas, o que um queria, não necessariamente era o desejo
do outro.
Na adolescência um apaixonou-se por uma ruiva
de cabelos curtos, o outro, por uma loira de cabelos extremamente longos. A
loira foi embora, deixando um a sofrer e o outro a lhe enxugar as lágrimas.
Lá pelos trinta, decidiram fazer uma operação
para separarem de corpo, pois o convívio já não era tão suportável como antes.
Operação feita, cada qual para seu canto, agora eram vidas extremamente
divididas.
Mas somente no apartamento vazio, no silêncio
pleno onde nenhum barulho era companhia, souberam separadamente que não
poderiam viver um, sem a presença e as manias do outro.
Hoje, moram juntos dividindo o mesmo
apartamento e o mesmo quarto.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Diálogo no Mediterrâneo Anterior.
Por Carlos Emílio C. Lima.
O dia de hoje tem quimeras acondicionadas em piscinas térmicas, vozes proliferam em ramos giratórios que procuram o sol posterior dos universos... E você come as próprias mastigações do espaço como se fosse comida oriental do Vesúvio, trazida para ele em naves aéreas invisíveis. Você sabe do velho rito das térmitas, cor de sibila, ventre de pó, qualidades sem luz que almejam, simplesmente almejam. Você por ali , na boca do Vesúvio escrevendo canções na argila tensa do animal adormecido, nas bordas dele gravando e estipulando o livro sobre os alpinistas desconhecidos. Houve quarenta canções que você enfeixou num caderno primordial antes do diluvio e que eu sempre procurei achar, eram sobre deuses da criação, deuses partidos por flores muito rápidas de aflição perdidas na atmosfera antes das primeiras escolhas urbanas da mente geográfica. São coisas que não se dizem facilmente, que precisam ser procuradas com os estiletes-ramos dessa montanha quase sucumbida em ternas mortições. Você achou , por causa de um sonho, um dos dentes secretos numa cidade intensíssima , guardado num cofre de um banco de espíritos, era um dente irrealmente gigantesco, carcomido, mas perseverando ainda inscrições remotas com listas de objetos cantados cujas funções muito raras ainda não compreendemos. Não sabemos porque aquele povo só conseguia desempenhar sua escrita na superfície comandalisada por estrelas rombudas desses dentes espalhados como sementes de futuras montanhas videntes. Esses 40 dentes enormes haviam caído na Terra em regiões sacerdotais. Tudo antes do dilúvio, antes do amortecimento dessas velhas canções ampliadíssimas. Um dente de ouro concreto, cernudo, dentro dele um dia imensamente roubado. Um dia com seu sol perpendicular e sua lua despregada com suas paliçadas a esmo. Correntezas em tiras escritas. O dente escutava tudo o que não existe, como se tivesse braços para remar em si mesmo, na sua memoria de líquidos de ventilações de reflexos. Dentições de um ser-universo que não sabemos a forma, a ecosistência, a orientação de seus fluimentos, suas indizíveis e prováveis muitas cabeças a beça. E o dente era coroado à distancia, com gritos muito fios finos retilintando potências degladiando-se. Você passava a mão complexa distintiva com seus muitos dedos raiados entre os cabelos em expansão, com renitências, as pupilas se amplificando, piando. Descia do Vesúvio para almoçar na planície com seus próprios dentes, mandíbulas pensantes, com todas aquelas imagens na cabeça. Que ser tão gigantesco fora aquele que tivera seus dentes espalhados pela Terra ? Teria sido sacrificado num barco sem limites? Sua pele seria este céu que brilha por nós estrelado? Você foi mais e mais se propondo a escrever, traduzir as canções, uma canção irredutível para cada dente, remotizando aos poucos as tradições das escritas sobre o marfim sincopado de silêncios surpreendidos no ápice de sua duração, aumentados. Mas você tinha o encontro prosaico, urgia o que perfazer. Almoçar no restaurante de atmosfera congelada, perto do mar. Conversar com a amiga recém-chegada da ilha antiga, onde vivia entre tigres e pavões, num bosque no meio das águas, preparando azuis e suas músicas de povoamento estelar. Ela sabia criar novos meios de transporte camuflados dessa música, com sua peles místicas acolchoadas, elevadíssimas, sempre em suspensão de sorrisos-naves e encantações autogeradas. Agora ela chegara, a de alma submarina. Você recebera o aviso-fonema no alto do vulcão, convidando-o para a refeição de conversações giratórias onde você se ampliaria notório no meio de estórias contemplantes. Num baque de armazéns com suas vértebras de adegas. Era melhor descer das bordas do vulcão para escutar o que ela lhe tinha a dizer com suas muitas vozes de propulsão entoada. Os dentes de granito, de ouro, de prata, todas essas camadas minéreas superpostas com seus estampidos acondicionados dentro, em suspensão, os dententes chamavam de longe, em ecoações. Urgia enconrtrá-los, os outros que faltavam, um por um, urgia preparar as expedições cromáticas, coribânticas em suas outras 39 direções entrelaçadas, fazer o tecido de preces, bordar com os fios dos horizontes vocálicos. Adênia chegara pra informá-lo de cada princípio de ecoação de cimos imotos, ela viera para se autodescrever como um périplo ao seu si mesmo, de perfume compresso.
Trouxera-lhe a lista que você tinha que cumprir aguardanapada, num papel de saliências e declives miniaturizados, toda uma região, topografia minuciosa da uma recurvada planície, uma “pnamide”, de antes do dilúvio na palma da mão e sobre ela a escrituração da lista ainda vaga, com as incumbências e alguns indicações sobre instrumentos raros de prospecção onírica para os preparativos da expedição simultânea . O salão do grande hotel envidraçado estava em plena festa do meio dia. Comeríamos medulas untadas de unguentos, azeites nos fariam cantar o hino silencioso dos ossos? Preparava-se desde ali uma construção muito sutil, quase espectral naquele restaurante à beira-mar através de refeições; toda aquela culinária e digestões resultantes seria uma forma de construir alguma coisa muito intensamente além de si , alguma coisa até então impossível de acontecer nós preparávamos sem saber, cozinheiros, garçons, comensais, hóspedes, fumantes nas laterais do salão translúcido. O que sabíamos mesmo de qualquer coisa, de si e do mundo? O que sabíamos do que não sabíamos? Mas não fora sempre assim desde que iniciara suas idas diárias ao vulcão sonolento, pensante útero dissolvente , incandescente de tantos corpos de suicidas fugidos das palavras e de comediantes acidentados, fervendo muitas almas ali, transformadas em fumaça. Toda a semana de novembro voltava de seus passeios ígneos sozinho, e almoçava apenas com sua mente, sem sequer rabiscar anotações onduladas no guardanapo de linho dócil. Mas hoje avistara do alto do vulcão o seu balão, o elo dela, da inconquistável senhora, flutuando indicativo, provável que cheio de vogais futuras, ali, ancorado na praia, destro ao perfil náutico do hotel viajante. Ela chegara , como uma incisão no espaço, uma hélice muito rápida e profunda dinamizava-se na atmosfera, vaporizando-se a cantar e a equilibrar pássaros ao longe, aquecendo formas mais que futuras. Com suas pupilas de tilintação seus olhos exuberavam sua presença por todos os lados, os cintilantes pratos de porcelana ancestral e copos de cristal, como se cortados ao espaço, empilhados , zuniam azucrinados dela, sentiam sua presença num êxtase compressivo. Tudo que era sólido, material, se esmerilhava, se interagia com suas moléculas e com seus átomos que repercutiam mais sem hiatos, vibratoriais orações sem intervalos, todos os artefatos esmerados, tudo aquilo que fora fabricado dos proliferados materiais da Terra, ficava mais nítido, bem para dentro do into espaço, intocabilizando-se por réstias íntimas de segundos palpebrados , um vento neutral de deuses ao inverso equalizava-se com restâncias, babas, formigas sem antenas, uma vestimenta incorpórea era preparada gota a gota evaporada para todo a cidade balneária. Uma baleia viva era pouco a pouco atraída do fundo do mar por toda aquela cidade, com seu livro de tímpanos, interior, com suas páginas estomacais folheadas por intermitências de buscas ao abismo, ventiladas.
Trouxera ela algo de novo ao espaço? A boca entreaberta pronta para a divulgação do “neome” da coisa intromissiva, desengavetada do interior químico do espaço, um bago de uva visionário, alado, saindo-lhe de entre os lábios, borrifando quandos, num vapor.
De onde viera aquela sensação de que ela era alguma coisa a mais de si mesma, assim feminina com seus vestidos auto-envolventes de dançarina súbita? Fora descendo os flancos timbrados pelas sombras das nuvens pesadas casadas com o vulcão que percebera que não a conhecia inteiramente, a essa irmã mais velha, sempre mais a leste do que ele, quase irreal porque nunca perto. E agora, essas visitações. O que desejava, ela que tanto se afastara dele todos esses tempos, pelos seus estudos de levitação, em seus estúdios arbóreos, em meio aos seus jogos metafísicos com nuvens marítimas, naquela ilha que ia construindo aos poucos extravasando os aterros ao redor como de si mesma, aracnídea, alimentando-se com o improvável de novos frutos genéticos de seu bosque palaciano, isolada no meio do grande arquipélago no golfo do mar altíssimo, acima do horizonte?
O que queria dele, mesmo, relatar? Somente dos pontos onde caíram os dentes do imenso ser de antes do diluvio vinha ela lhe falar? Evadia-se algo dela que não percebíamos, ainda. Era preciso cautela milenar, aprendida com o sangue e com o mar.
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