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domingo, 21 de abril de 2013

Loop




Resolvi me perder e não falar sobre você durante muito tempo. E em contrapartida, ser mais um a exagerar nos cigarros, nas drogas, num círculo de amigos disfuncionais e com tendências destrutivas. Assim fui eu na noite enquanto te observava além de si mesmo, aquela solidão ao redor da mesa enquanto que, pra disfarçar o tempo, eu fingia escrever uma mensagem de vida ou morte no celular. Mas tudo pareceu em vão, você nem sequer decifrou o jogo cujo ápice aconteceria em três horas. A cama onde deitaríamos lânguidos numa paisagem erguida além de nossas neuroses e horários a cumprir. Nos desencontramos antes mesmo de qualquer arrependimento. Aí você foi embora, pedi outra bebida, cruzei as pernas numa nova tentativa de glória, medo, loucura e redenção.

Microcontos.



Por Tiago Velasco

Empire State

Era a primeira vez em Nova York. Lua de mel. Depois de três dias, ela disse que o casamento foi um engano. Marcou a passagem de volta para a noite. Só a dela. Ele saiu desesperado pelas ruas de Manhattan. Adentrou a portaria do prédio. Uma fila enorme aguardava o elevador. Estava com pressa. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10 degraus, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, ... ,93,  94, 95 degraus, 96, 97, 98, 99, ..., 431, 432, 433, o coração havia de suportar, 434, 438, ... 918, 919, só mais alguns, 920, 921, 922, ..., 1573, arf, arf, arf. Decepcionou-se com as grades até o teto.


Top model
Desfilava nas passarelas de Paris, Nova York e Milão. Os principais estilistas faziam questão de que ela vestisse seus looks. Não assinava contrato de exclusividade. Diziam que tinha um caminhar único. E uma beleza exótica. Um rosto indecifrável era o elogio máximo. Inexpressiva, fazia a roupa brilhar. Morreu sem uma ruga.


Reflexo
– Por que você me ama?
– Porque você me ama!

quinta-feira, 21 de março de 2013

O Primeiro.




Caminhava lento por ruas da cidade. Um cigarro na boca. Perto das 5 horas. Já não tinha um sol tão forte acima de minha cabeça. Caminhava despreocupado, atento por ruas sujas, os pés quase pisando em poças d´água, lama, sujeira nos cantos das calçadas, frutas podres jogadas. Cheiro de mijo. Algumas ruas por onde ando têm cheiro de mijo. Em algumas o cheiro é mais forte. Nesta onde caminho é mais fraco. Mesmo assim ainda dá pra sentir.

Mais um quarteirão, e então passo em frente a uma igreja que nunca entrei. Curioso pensar nos vários lugares nesta cidade formiga formigueiro onde nunca pus os pés. Faço o sinal da cruz e atravesso a rua. A pista molhada e hoje sequer choveu. Cidade suja, calçadas sujas. Dobro a esquina, avisto a casa, agora mais próxima, dou uma última tragada no cigarro, a fumaça sobe transformando-se em nuvem, nevoeiro sobre os olhos. Jogo a ponta do cigarro no chão. Cidade suja.

Atravesso a rua, olho para os lados, não vem carro. Estranho as ruas estarem tão vazias em plena sexta-feira, agora 5 da tarde. Os pés tocam a calçada, o coração dentro do peito dá um soluço. Aproximo-me do portão de ferro quadriculado com pintura branca descascando. Lá dentro uma mulher me vê e vem abrir o portão. Passos arrastando chinela. Um sorriso. Vai abrindo para que eu entre.

-A Kelly está? Pergunto.
-Tá sim, lá dentro. Entra e espera, já vou chamar. Responde com voz natural, despreocupada.

Ela se retira e segue em um corredor. A sala não muito grande. Uma TV no canto, dois sofás formando um L, uma mulher sentada no sofá de dois lugares com as pernas atrepadas em um banquinho, bebe cerveja e assisti TV, me olha e depois volta para a TV. Não demora muito e dos fundos da casa a outra volta arrastando as chinelas.

-Ela já tá vindo. Pode sentar aí, quer uma cerveja? Fala sem olhar para mim.

Respondo que não com a cabeça sem saber se ela viu ou não. Já tinha bebido e hoje meu dinheiro está curto. Sento no sofá de 3 lugares. A mulher senta do lado da outra que bebe cerveja e vê TV. Senta do lado dela e puxa uma serrinha do canto do sofá, e então começa a passar nas unhas.

Não foi difícil encontrar o lugar, já conhecia a rua, conhecia a casa de vista. Nova moradia de Kelly.

Dos fundos da casa ela surge com seu andar mole, um tipo de desfile. Me olha de longe e sorri. Eu levanto quando ela se aproxima. Sorriso em seu rosto.

-Veio cedo, meu amor. Ela fala.

Dou um sorriso para ela.

É que queria ser o primeiro.

A Herança Ingrata.




A porta abre fazendo um rangido que assusta os gatos. Ela entra com uma tigela cheia de leite até a borda, a mesma tigela que tinha amanhecido seca.

-A benção, minha vó.
-Deus lhe abençoe, minha netinha.

O tom de pele dela é diferente do meu, eu sou branca; pálida quando passo o dia em casa e rosa quando tomo sol. A cor da pele da minha neta eu não sei, é algo entre o tom de pele que predomina entre os indianos e o que predomina entre os africanos. O pai da minha neta é negro, a minha filha era branca. A menina nasceu então com uma cor intermediária entre os dois.

Ela cuida de mim e dos meus gatos. Num futuro próximo morrerei, daí minha neta passará a cuidar somente dos meus gatos. Até que, de saudade, cada um dos meus gatos vá morrendo também e minha neta possa viver sem essa herança ingrata. Pois sei que essa menina não gosta de gatos, ela cuida deles para me fazer bem, para cuidar de mim.

-Já comeu hoje, voinha? Eu deixei um bolo de milho na mesa e acho que a senhora nem triscou nele!
-Comi do bolo, sim, tava bom.
-Mas vó, o bolo tá lá, inteirinho! A senhora nem comeu, não, vou trazer aqui um pedaço!

Ela sai do alpendre e vai na cozinha buscar o bolo. A verdade é que não comi do bolo, eu menti. Eu minto, minto sem perceber, minto para não discutir, minto para poupar palavras. É tão mais fácil, tira um peso enorme dos ombros. Acho que quando a gente chega numa idade a morte dá um tapinha nas nossas costas e pergunta: ‘você vai querer ser um velho calminho e silencioso ou vai querer ser daqueles que dão palpite em tudo?’ Eu escolhi ser uma velha tranquila, resignada, de poucas e serenas palavras.

A minha neta aparece de volta com um pedaço de bolo e o traz até a cadeira de balanço onde estou sentada. O bolo é bom, mas não tenho fome. Se eu tivesse fome, comia o bolo inteiro, mas não. Ela não sabe que eu minto por uma comodidade estranha, acha que eu perdi a lucidez. Ela me olha com um uns inquisidores olhos negros, me assiste comendo, para ver se eu como tudo. E como os olhos dela brilham, são pretos, duas bilas escuras e brilhantes e me olham e me dão medo. Ela parece a minha mãe. Mas a minha mãe era branca e tinha os olhos verdes que eu não herdei.

-Comi já, leva aqui o prato – e ela pega o prato das minhas mãos com medo de quebrar (os pratos ou as minhas mãos, não sei).
-A senhora devia se cuidar mais, ver se come mais.
-Não preciso me cuidar, pois já tenho você que cuida de mim, Sebastiana.
-Meu nome é Lívia, vovó.
-Mas o nome da minha mãe é Sebastiana.

Minha netinha perde o olhar no chão e leva o prato para a cozinha. Eu não menti, dessa vez não foi por comodidade. Eu me enganei, esqueci, troquei os nomes. Ela agora sabe, tem a confirmação, que fiquei gagá. E eu, com o pouco de lucidez que tenho me dou conta que estou ficando senil. É tão triste chorar e lembrar dos olhos azuis da minha mãe e dos negros e inquisidores da minha neta e não querer esquecê-los, jamais.

E depois, num lapso da memória, recordar que os olhos da minha mãe eram verdes e não azuis.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Microconto.

Por: Tiago Velasco.


Microconto

Há quem anote pequenos trechos de histórias em cadernos para depois escrever crônicas, contos ou romances. Eu me dou por satisfeito.

Memória ocular

Operou a vista. Da miopia, sobrou apenas o tique de ajeitar os óculos sobre o nariz.

Mundo animal

Primeiro foi um porco. Patos e galinhas em seguida. Os jacarés do mangue não deixavam passar nada. Tinham sonhos ambiciosos. Os bracinhos e perninhas das crianças que brincavam próximas à vala negra. Os dedinhos das menorzinhas enchiam as bocas dos répteis de saliva. O caviar que compensa o mau cheiro da região. Os jacarés sabem esperar. Parados, quase mortos. Economizam energia para o bote certeiro. Delícia. E pensar que antes era tudo um matagal só. Bendito progresso.


A Noiva

Véu, grinalda, chuva de arroz. Jogou o buquê para a futura mulher de seu marido.

Rompimento


O celular vibrou. Mensagem de texto. Apertei o botão. “Vc eh mto ciumento. Nao aguento mais esses ataques no meio da rua. Não respeita ngm. Chega. Pode apagar o meu número do seu cel e me tirar do seu feice. Vc jah eh passado. Acabou de vez.” Dei mais alguns passos olhando para a tela do celular, de cabeça baixa. As pessoas na calçada desviavam para não trombar comigo. Pensei em responder. Cheguei a digitar as primeiras palavras. Desisti. Eu nem tinha namorada.

Uma Estrela.





Uma estrela flutuou e entrou pela persiana aberta de minha janela. Uma estrela branca, um floco de neve. Mas como um floco de neve poderia aparecer a essa época do ano, se estamos em pleno verão? Não sei, talvez seja só a madrugada.

Existem tantas coisas que ainda não sei, tantas coisas que estou longe de entender. Levando em conta minha idade já deveria saber de muitas coisas, entende-las melhor. Mas não, passo por essa vida sem dela retirar muitos ensinamentos. O tempo não para, e eu parada no ar sem saber aonde ir.

Semana passada encontrei com um antigo amigo de colégio. Quanto tempo fazia? Sete, treze, noventa anos que tudo tinha passado? . Nem me lembro direito desse tempo. Todos tão juntos, promessas que o tempo não nos separaria, a turma que sempre estaria unida.

O tempo passou e o que aconteceu? Encontro com um ou outro em ocasiões extremamente separadas. Sorrisos, às vezes uma cerveja, um sorvete, uma conversa. Engraçado, sempre algo frio. O tempo passa e leva com ele pedaços de nós.

Meu amigo me disse que estava bem, trabalhando muito, falta de tempo sempre presente, mulher, filhos, casa na praia. – “Qualquer dia apareça, vamos reunir a velha turma! O que anda fazendo?” - O que ando fazendo?! Reunir a velha turma?! – “Vamos marcar um próximo encontro, te apresento meus filhos, minha esposa.” – Provavelmente nunca mais nos veremos, ou quando nos esbarrarmos novamente o tempo terá me levado de sua memória para um já não reconhecimento. O tempo carrega pedaços da alma, espelhos do que se foi.

Acendo um cigarro, sentada na cadeira olhando para a janela com as persianas abertas. Uma lágrima escorre de um olho, não consigo segurar a melancolia. Lentamente outro floco de neve entra por um das persianas abertas, vem flutuando até cair na palma de minha mão. Branco, brilhante, quente. Seria mesmo uma estrela?

Little Boy.

 



- Foi assim mesmo- disse o enfermeiro- sem parágrafos. Insano como se esperava, mas não dá pra negar, doutor, faz sentido de alguma forma.

O doutor lia e balançava a cabeça pensativo ao concordar. Tudo estava registrado em três fotografias. Uma prova irrelevante para a Justiça. Mas só entre os dois, a explicação para tudo. Toda a tragédia.

O enfermeiro fizera questão de que tudo estivesse legível ao fotografar o texto na parede do quarto do rapaz, pois sabia que estava tudo ligado. O texto, as atitudes. Um rapaz que conseguiu mudar muita coisa, embora tenha feito pelos meios mais errados. Pela primeira vez, em quinze anos de profissão, o doutor pensava agora se não dera um diagnóstico incorreto.

- Encontrou mais alguma coisa lá?- perguntou após um suspiro cansado. Foram dois dias estafantes. Corridos. Estava todo mundo cansado. Ele via no rosto do enfermeiro a vontade de fazer algo mais, mas o melhor mesmo seria descansar. Não havia mais nada que se pudesse fazer. Apocalipse é apocalipse. Ponto.

- Não, doutor. - respondeu o enfermeiro. - Nada mais que a polícia ou qualquer um de nós já não tenha visto.

O doutor balançou a cabeça mais uma vez. Os dois fizeram um longo silêncio. O enfermeiro apanhou da mesa as fotos mais uma vez. Olhou-as com cuidado. Leu o texto inteiro novamente.

- Anarquista... - sussurrou.

Com a cabeça apoiada na mão, o doutor que se balançava de um lado para outro na cadeira jogou sobre ele um olhar inquisitivo.

- Isso aqui é anarquismo puro, doutor. - disse o enfermeiro ao perceber a dúvida no olhar do outro. – Quer dizer... aposto que sei o que o senhor está pensando agora. Mas não tinha como a gente saber. O senhor não errou. Ele só não devia estar aqui. Como nenhum dos outros. O lugar deles não é aqui. Não importa o que ele tenha feito. Esse lugar não é adequado pro que a gente tá tentando fazer.

- É mesmo... - anuiu o doutor num tom cansado. - É mesmo.

O enfermeiro colocou de volta as fotos sobre a mesa do doutor. Recostou-se por um momento apenas para conferir se ele estava realmente bem. Viu um semblante tomado pela culpa. Para essa doença não havia remédio algum. E até inventarem a máquina do tempo, continuaria assim.Bateu as mãos nos braços da cadeira e levantou-se num movimento rápido.

- Bem, acho que já vou, doutor. Se precisar de alguma coisa... Alguém pra conversar. Pode ligar. Moro no São Cristóvão. Minha esposa disse que está tudo bem por lá. Ninguém foi atingido na periferia. Se quiser um lugar mais tranquilo pra dormir...

- Ok, obrigado mesmo. - disse o doutor. - Também vou pra casa. Estou quebrado. Por dentro e por fora. Bem que eu gostaria de ter uma esposa me esperando. Sã e salva. – disse por fim com um risinho insosso.

O enfermeiro não conseguiu depurar a comiseração do olhar que lançou para o amigo. Virou-se e saiu.

- Você poderia dizer agora. - disse o doutor antes que o enfermeiro fechasse a porta.
- Hã? – disse o enfermeiro colocando apenas metade do corpo de volta.
- Você disse que passaria na minha cara meu erro. Estava certo o tempo todo. Eu lhe devo desculpas.
- Não pense nisso. Como eu disse, não tinha como saber. Eu segui minha intuição apenas. Somos profissionais da saúde. Trabalhamos com evidências, não com intuição. Eu só estava nervoso, não faria isso jamais.

Os dois estavam sendo sinceros e percebiam isso em seus olhares e palavras.

- Eu sei... - disse o doutor- eu sei.

O outro fez um sorriso com o canto da boca. Daquele tipo que sai com o maior esforço em situações que pedem um sorriso justamente quando não há força nem motivo para tal. Pelo enfermeiro ter conseguido dando seu máximo, o doutor agradeceu. Mas sabia que o amigo estava sendo apenas generoso.

Quando a porta se fechou, o doutor levantou-se e olhou as fotos sobre a mesa. Afastou as três que foram trazidas pelo enfermeiro. Três fotografias que eram partes complementares de um texto escrito na parede com giz de cera molhado. Abaixo delas estavam outras. As que deveria entregar à polícia. Roupas de funcionários do hospital jogadas num canto de parede da ala norte. Portões do corredor arrebentados pelo lado de fora. As provas de que o paciente havia recebido ajuda de pessoas externas à equipe. Os donos dos uniformes foram encontrados amarrados no canteiro de obras ao lado do hospital. Na verdade um terreno cheio de entulho que o governo se comprometeu a retirar, mas nem isso nem as obras haviam começado em dois anos e os pacientes continuavam apertados em quartos pequenos, mal iluminados e com paredes sujas. Quartos como o do paciente em questão.

Quando chegou ao hospital, a única pessoa com quem o rapaz conseguia se comunicar era com o enfermeiro. Recusava-se a dizer sequer uma palavra a médicos, técnicos ou qualquer outro funcionário. De alguma forma percebia nele a capacidade de entender coisas que deveriam ser ditas a um número maior de pessoas. E não era para menos. “Anarquista”. Sim, o enfermeiro entendia. Havia diálogo ali. Pena que o doutor não deu ouvidos quando o enfermeiro avisou que aquele paciente era diferente. Inteligente demais. De família rica. Típico caso de jovem revoltado que desafia o pai empresário e acaba no hospital psiquiátrico. “Drogas demais”, alegou o segurança do pai quando o veio internar. Estava muito agitado. “Precisa de uma camisa de força!”, disse o brutamonte. O enfermeiro pôs isso no prontuário também.

Dois meses de internação. Não era violento, muito pelo contrário. Parecia completamente normal. Mas aquele olhar. Não era dissimulação, nem ódio, nem loucura. Era um misto de tudo isso. Demorou em entender da forma mais dura que o nome daquilo era obstinação. Tomava normalmente os medicamentos. Até entendia deles. Tranquilizantes e moderadores do humor. Participava das terapias de grupo. Fazia os passarinhos de papel da terapia ocupacional e conversava com os outros pacientes, os mais e os menos normais com a mesma paciência e respeito. E escrevia. Muito. Dia e noite em um bloquinho de notas que sumiu junto com ele.

“Ele precisa ir para outro lugar.” Dizia o enfermeiro. “Alguma coisa é verdade ali. Ele não fez o que fez num delírio”.  Mas o doutor insistira no diagnóstico. Abriu o prontuário que jazia junto às fotos e leu sua parte das anotações:

Código de Classificação de Doenças F 20.0: Esquizofrenia Paranoide. Sintomas produtivos: alucinações visuais e auditivas. Mania de perseguição. Imagina fazer parte de um grupo revolucionário que tem como objetivo iniciar uma nova sociedade. Comunicação seletiva. Sintomas depressivos. Agressividade esporádica. Internado pelos próprios familiares após roubar grande soma em dólares do próprio pai. Registros encontrados no quarto do paciente revelam que o objetivo do roubo seria a compra de artefatos nucleares por meio de contatos com grupos fundamentalistas muçulmanos no Oriente Médio. Soma subtraída conduzida a paradeiro ainda não identificado.

Fechou o prontuário e jogou-o sobre a mesa. Apanhou as três fotos do texto da parede e pregou-as com tachinhas no flanelógrafo atrás da mesa na ordem em que se seguia o escrito. Aquele texto lhe condenava secretamente. Mas tinha a certeza de que condenava a todos. Todos mesmo, toda a Humanidade. Desde o início dos tempos. Desde que o Homem é capaz de registrar seus feitos. Desde que é capaz de sobrepor sua dominação à natureza e a seus semelhantes mais fracos.

Foto 1:
“Eu não posso dizer o que vem depois, mas antes de melhorar, a coisa vai piorar muito. E esta não é uma perspectiva pessimista. Muito pelo contrário. A força destruidora é também uma força criadora. É necessário que se desfaça tudo que está aí. A política, o modo como os poderosos mantêm a estrutura parasitária da sociedade sustentada pelo trabalho da maioria mais pobre e desprovida. Não haverá perfeição. A Humanidade dificilmente verá uma forma de organização na qual o respeito e a compreensão completa predominem nas relações entre as pessoas. A minha ideia é que isso possa se concretizar em pequenos grupos que estabeleçam o compromisso de manterem-se íntegros em si e não se agridam mutuamente. Parece uma organização tribal, o que dá a ideia de que a paz verdadeira somente poderá ser alcançada quando a Humanidade assumir que o progresso tecnológico precise sofrer uma desaceleração de radical severidade.”

Foto 2:
“É exatamente isso. O progresso científico avança em uma velocidade vertiginosa. Quase não percebemos a relevância de uma descoberta ou invenção antes que a próxima seja anunciada. Nesse sentido, é necessário que haja a consciência coletiva de que já possuímos considerável nível de desenvolvimento e que devemos adotar uma postura mais reflexiva, concentrando esforços na organização social, de modo a que possamos direcionar as formas de avanço tecnológico de maneira mais lúcida e integrada, em que todas as pessoas tenham conhecimento e acesso ao recurso criado e possam contribuir para que ele possa ser posto em prática a fim de produzir um benefício que alcance cada membro da coletividade. Pequenos grupos. A evolução da Humanidade não é baseada na capacidade orgânica de resistir a uma condição ambiental adversa.”

Foto 3:
“Mas sim baseada na capacidade de manter um status pacífico em uma organização igualitária na qual cada pessoa é provida dos recursos necessários à sua subsistência, lazer, satisfação intelectual e espiritual, com liberdade para produzir e expressar ideias e que estejam em total e voluntária comunhão com o grupo, senão voluntariamente, sozinho, mas que não haja qualquer autoridade, a não ser sua própria compreensão, que possa regular ou definir sua conduta e suas escolhas. Essa capacidade, aliada à vontade de relacionar-se de forma sustentável com a Natureza definiria um novo Ser Humano. Não posso dizer o que vem depois. Mas o que vier tem início hoje. Ass.: Little Boy”.

Deveria ter ouvido melhor o amigo. Deveria ter ouvido melhor seu paciente. Grande médico. Logicamente ninguém colocaria a culpa nele. Sua carreira estava intacta. A cidade não. Longe disso. O rapaz fora resgatado do hospital. Seu diagnóstico equivocado não determinava que um dia os amigos “imaginários” dele fossem render funcionários do hospital e retirá-lo de lá como se faz com traficantes em delegacias. Não era culpa de ninguém. Essa era a versão oficial. Mas a versão de sua consciência o condenava. O Centro de Fortaleza e todos os bairros ao redor foram varridos do mapa por uma bomba nuclear de fabricação artesanal. 22 mil pessoas mortas em segundos. 120 mil pessoas feridas pela onda térmica. Uma nuvem radioativa se espalhava naquele momento por todo o Ceará e oceano afora. O pulso eletromagnético colocava em pane a comunicação à distância.

Não era culpa de ninguém. Mas o rapaz tinha razão. Era culpa de todo mundo. Pensando nessas coisas o doutor deixou-se cair novamente na cadeira. Olhou as fotos no quadro. Depois baixou a cabeça e chorou. Apocalipse é apocalipse. Ponto.




Django, um encontro pela palavra.





Um tarde quente no meu quintal; o cheiro do churrasco se mistura com o da cerveja. Recebo um SMS de David dizendo de um engarrafamento quilométrico, ainda vai demorar um bocado. Quem bate na porta é Quentin, com dez longnecks dentro de um saco. Ele diz que eu estou suado pra caralho, man. Pergunta do belga, que está tirando uns sons da guitarra na cozinha enquanto espera o baião ficar pronto. Quando ele disse que ia compor uma canção chamada Dr. Schultz, na noite anterior, o outro Django riu. Por falar nele, ele está agora está no aeroporto, embarcando Broomhilda.

O calor está de matar e nós bebemos mais cerveja. Quentin joga molho de pimenta na carne e diz que se o churrasco não nos atacar vai ficar muito gostoso. Sinceramente, não sei se é uma piada, mas rio como se fosse. Django surge com uma panela de baião-de-dois, sua guitarra e três melodias inéditas para a tarde, os standards da nossa tarde, brinca.

Uma tarde quente feito o deserto. Mas estamos felizes e mostramos os dentes muitas vezes. Não ficamos constrangidos quando o silêncio é distribuído entre todos, porque partilhamos de evidente intimidade. Então Quentin diz algo engraçado e iniciamos um debate qualquer; que mesmo sobre assassinatos perversos se torna divertido. Django passa as mãos sobre a guitarra e até o cheiro do churrasco se cala para ouvir: Allof me seguida de The man I love. 

Alguém irrompe pelo quintal com um wow. Mesmo sem o gatilho dos olhos, sabemos que é Django Freeman. Ele se junta a nós, morrendo de sede, caralho. Quando Django e Django se chamavam, e ficavam se elogiando jocosamente com você é o melhor, nós ríamos demais.

Já estávamos bêbados quando David, Vincent, Jimmy e Tommy chegaram. Eles também estavam; sabendo do engarrafamento, compraram muitas cervejas e ficaram bebendo no carro; aqui estão, rindo como loucos. 

Os vizinhos já virão reclamar, acredito, porque todos falam muito alto. Quentin pega uma digital e nos filma ora com a boca cheia de carne ora jogando cerveja uns nos outros. Django oferece sua SelmerMaccaferri para Vincent, como um desafio. Ele não fez feio tocando Firewater, mas não se tratava de um bruxo como o belga. Quentin também se aproveitou do instrumento, fazendo-se ouvir algo italiano, Morricone talvez.

Eu olhei para todos e respirei um ar muito satisfeito.

Num certo momento, fomos todos distraídos por várias batidas nervosas na porta. Eram militares que não aceitaram negativas e entraram casa adentro, vasculhando tudo. Não interessava a Djangoo que estavam procurando. Ele sacou seu revólver e deu conta de um por um dos caras. Tínhamos sangue por todos os lados, mas nenhum dos nossos ficou ferido. 

Pela porta aberta passou um homem aflito que, antes de levar um tiro, pediu desculpas pelo incômodo; os soldados estavam procurando por ele, mas não procurarão mais, como tratou de explicar Django, ainda de arma em punho.

Reinhardt acalma os ânimos, apresentando-se ao estranho. Meu nome é João Goulart, mas podem me chamar de Jango, pois, já que me salvaram, são meus amigos. Sorrimos aliviados. Django, mas com o d invisível, brincou Tommy, enquanto Jimmy deu uma cerveja ao mais novo do grupo. Ele relaxou antes de contar que talvez tivesse apenas aquela tarde de vida, porque muitos soldados estavam em seu encalço; todos do país, acrescentou rindo. Fizemos um silêncio emocionado quando Freeman disse que os mataria sozinho.

Eu disse que se Jango tinha apenas aquela tarde, que a tivesse da melhor forma. Bebemos e comemos bastante até que chegou a noite e depois o dia novamente.

Eu olhava para todos de vez em quando, pensando como aquilo era bom.

*Jean Reinhardt, artisticamente conhecido como DjangoReinhardt foi um guitarrista de jazz belga, nascido em 1910 e falecido em 1953.

*Django Freeman é o protagonista do filme DjangoUnchained, de 2012, dirigido por Quentin Tarantino.

*DjangoDjango é uma banda londrina de rock, formada em 2009 por David Maclean, VicentNeff, Jimmy Dixon e Tommy Grace.

*João Belchior Marques Goulart, popularmente conhecido como Jango, foi o 24º presidente do Brasil, sendo deposto por forças militares em 1964.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Na Academia.



Por Ismael Angelus

Chegando na academia o novo personal trainer vem até mim:

— Bom senhor Angelus, eu atualizei o seu programa que por acaso já deveria ter mudado desde o dia 16 de Dezembro.
— Ãhn, tudo bem.
— Venha comigo, vou lhe mostrar como executar os novos exercícios.

Eis que ele me conduz até um par de halteres pesando juntos possivelmente uns 200 kilos...

— Tome, agora segure-os e levante flexionando dessa maneira.
— Hein?! Você só pode estar brincando comigo!
— Como assim?
— Não tem como eu levantar essa porra! Olha pra mim!
— Qual o problema? Observe, é fácil.
— Claro que é fácil! Você é como o Hulk sem a tinta verde, enquanto eu pareço uma minhoca com AIDS!
— Deixe de bobagem, é claro que consegue.
— Cara, o único jeito de eu levantar isso é se você me arranjar uma lata de espinafre e assobiar pra mim a música tema do POPEYE!
— Acabou a conversa, tome.
Ele me entrega os dois pesos e automaticamente minha cabeça fica mais vermelha que um pirulito de morango.

— Viu como não pesa tanto?
— Essa droga pesa mais que consciência de pedófilo!
— Deixe de reclamar e comece a contagem.
— Um...
— Isso, continue.
— Dois...
— Vamos lá, você vai conseguir.
— Dez... — digo enquanto largo os pesos.
— Negativo, nada disso.
— O que quer dizer?
— Nada de parar em "três".
— Eu parei no dez...
— Não. Parou no três.
— Você deve ter se distraído... Às vezes eu também tenho lapsos de tempo assim, sabe?
— De jeito nenhum. Pode recomeçar.
— Foi a minha ex-mulher quem te contratou para me matar?
— Você já foi casado?
— Graças à Zeus não, mas tive uma amostra do negócio...
— E como foi?
— Digamos que a coisa toda foi quase tão divertida quanto um piquenique no inferno...
— Sinto muito por isso, só que agora acabou a enrolação.

UMA HORA E MEIA DE TORTURA DEPOIS...

- Tem mais algum pra fazer ou já posso ir pra casa e amputar meus braços?
- Não, encerramos por hoje. Amanhã vamos malhar "perna".
- OH MY DOG!

[Essa é a parte em que você depois de ler essa maravilhosa historinha se pergunta: "e como diabos você ainda tem condições de mexer os braços para digitar isso tudo?". Bom, eu não quero me gabar, mas eu e o Kid Bengala temos algo em comum...]


Gêmeos.




Nasceram gêmeos, ligados um ao outro pelo corpo. Na infância um queria brincar com bola, o outro com carrinho. Cresceram então com opiniões diversas, o que um queria, não necessariamente era o desejo do outro.

Na adolescência um apaixonou-se por uma ruiva de cabelos curtos, o outro, por uma loira de cabelos extremamente longos. A loira foi embora, deixando um a sofrer e o outro a lhe enxugar as lágrimas.

Lá pelos trinta, decidiram fazer uma operação para separarem de corpo, pois o convívio já não era tão suportável como antes. Operação feita, cada qual para seu canto, agora eram vidas extremamente divididas.

Mas somente no apartamento vazio, no silêncio pleno onde nenhum barulho era companhia, souberam separadamente que não poderiam viver um, sem a presença e as manias do outro.

Hoje, moram juntos dividindo o mesmo apartamento e o mesmo quarto.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Diálogo no Mediterrâneo Anterior.


Por Carlos Emílio C. Lima.


O dia de hoje tem quimeras acondicionadas em piscinas térmicas, vozes proliferam em ramos giratórios que procuram o sol posterior dos universos...  E você come as próprias mastigações do espaço como se fosse comida oriental do Vesúvio, trazida para ele em naves aéreas invisíveis. Você sabe do velho rito das térmitas, cor de sibila, ventre de pó, qualidades sem luz que almejam, simplesmente almejam. Você por ali , na boca do Vesúvio escrevendo canções na argila tensa do animal adormecido, nas bordas dele gravando e estipulando o livro sobre os alpinistas desconhecidos. Houve quarenta canções que você enfeixou num caderno primordial antes do diluvio e que eu sempre procurei achar, eram sobre deuses da criação, deuses partidos por flores muito rápidas de aflição perdidas na atmosfera antes das primeiras escolhas urbanas da mente geográfica. São coisas que não se dizem facilmente, que precisam ser procuradas com os estiletes-ramos  dessa montanha quase sucumbida em ternas mortições. Você achou , por causa de um sonho, um dos dentes secretos numa cidade intensíssima , guardado num cofre de um banco de espíritos, era um dente irrealmente gigantesco, carcomido, mas perseverando ainda inscrições remotas com listas de objetos cantados cujas funções muito raras ainda não compreendemos. Não sabemos porque aquele povo só conseguia desempenhar sua escrita na superfície comandalisada por estrelas rombudas desses dentes espalhados como sementes de futuras montanhas videntes. Esses 40 dentes enormes haviam caído na Terra  em regiões sacerdotais. Tudo antes do dilúvio, antes do amortecimento dessas velhas canções ampliadíssimas. Um dente de ouro concreto, cernudo, dentro dele um dia imensamente roubado. Um dia com seu sol perpendicular e sua lua despregada com suas paliçadas a esmo. Correntezas em tiras escritas. O dente escutava tudo o que não existe, como se tivesse braços para remar em si mesmo, na sua memoria de líquidos de ventilações de reflexos. Dentições de um ser-universo que não sabemos a forma, a ecosistência, a orientação de seus fluimentos, suas indizíveis e prováveis muitas cabeças a beça. E o dente era coroado à distancia, com gritos muito fios finos retilintando  potências degladiando-se. Você passava a mão complexa distintiva com seus muitos dedos raiados  entre os cabelos em expansão, com renitências, as pupilas se amplificando, piando. Descia do Vesúvio para almoçar na planície com seus próprios dentes, mandíbulas pensantes, com todas aquelas imagens na cabeça. Que ser tão gigantesco fora aquele que tivera seus dentes espalhados pela Terra ? Teria sido sacrificado num barco sem limites? Sua pele seria este céu que brilha por nós estrelado? Você foi mais e mais se propondo a escrever, traduzir as canções, uma canção irredutível para cada dente, remotizando aos poucos as tradições das escritas sobre o marfim sincopado de silêncios surpreendidos no ápice de sua duração, aumentados. Mas você tinha o encontro prosaico, urgia o que perfazer. Almoçar no restaurante de atmosfera congelada, perto do mar. Conversar com a amiga recém-chegada da ilha antiga, onde vivia entre tigres e pavões, num bosque no meio das águas, preparando azuis e suas músicas de povoamento estelar. Ela sabia criar novos meios de transporte camuflados dessa música, com sua peles místicas acolchoadas, elevadíssimas, sempre em suspensão de sorrisos-naves e encantações autogeradas. Agora ela chegara, a de alma submarina. Você recebera o aviso-fonema no alto do vulcão, convidando-o para a refeição de conversações giratórias onde você se  ampliaria notório no meio de  estórias contemplantes. Num baque de armazéns com suas vértebras de adegas. Era melhor descer das bordas do vulcão para escutar o que ela lhe tinha a dizer com suas muitas vozes de propulsão entoada. Os dentes de granito, de ouro, de prata, todas essas camadas minéreas superpostas com seus estampidos acondicionados dentro, em suspensão, os dententes chamavam de longe, em ecoações. Urgia enconrtrá-los, os outros que faltavam, um por um, urgia preparar as expedições cromáticas, coribânticas em suas outras 39 direções entrelaçadas, fazer o tecido de preces, bordar com os fios dos horizontes vocálicos. Adênia chegara pra informá-lo de cada princípio de ecoação de cimos imotos, ela viera para se autodescrever como um périplo ao seu si mesmo, de perfume compresso.

Trouxera-lhe a lista que você tinha que cumprir aguardanapada, num papel de saliências e declives miniaturizados, toda uma região, topografia minuciosa da uma  recurvada planície, uma “pnamide”, de antes do dilúvio na palma da mão e sobre ela a escrituração da lista ainda vaga, com as incumbências e alguns indicações sobre instrumentos raros de prospecção onírica para os preparativos da expedição simultânea .  O salão do grande hotel envidraçado estava em plena festa do meio dia. Comeríamos medulas untadas de unguentos, azeites nos fariam cantar o hino silencioso dos ossos? Preparava-se desde ali uma construção muito sutil, quase espectral  naquele restaurante à beira-mar através de refeições; toda aquela culinária e digestões resultantes seria uma forma de construir alguma coisa muito intensamente além de si , alguma coisa até então impossível de acontecer nós preparávamos sem saber, cozinheiros, garçons, comensais, hóspedes, fumantes nas laterais do salão translúcido. O que sabíamos mesmo de qualquer coisa, de si e do mundo? O que sabíamos do que não sabíamos? Mas não fora sempre assim desde que iniciara suas idas diárias ao vulcão sonolento, pensante útero dissolvente , incandescente de tantos corpos de suicidas fugidos das palavras e de comediantes acidentados, fervendo muitas almas ali, transformadas em fumaça. Toda a semana de novembro voltava de seus passeios ígneos sozinho, e almoçava apenas com sua mente, sem sequer rabiscar anotações onduladas no guardanapo de linho dócil. Mas hoje avistara do alto do vulcão o seu balão, o elo dela,  da inconquistável senhora, flutuando indicativo, provável que cheio de vogais futuras, ali,  ancorado na praia, destro ao perfil náutico do hotel viajante. Ela chegara , como uma incisão no espaço, uma hélice muito rápida e profunda dinamizava-se na atmosfera, vaporizando-se a cantar e a equilibrar pássaros ao longe, aquecendo formas mais que futuras. Com suas pupilas de tilintação seus olhos exuberavam sua presença por todos os lados, os cintilantes pratos  de porcelana ancestral e copos de cristal, como se cortados ao espaço, empilhados , zuniam azucrinados dela, sentiam sua presença num êxtase compressivo. Tudo que era sólido, material, se esmerilhava, se interagia com suas moléculas e com seus átomos que repercutiam mais sem hiatos, vibratoriais orações sem intervalos, todos os artefatos esmerados, tudo aquilo que fora fabricado dos proliferados materiais da Terra, ficava mais nítido, bem para dentro  do into espaço, intocabilizando-se por réstias íntimas de segundos palpebrados , um vento neutral de deuses ao inverso equalizava-se com restâncias, babas, formigas sem antenas, uma vestimenta incorpórea  era preparada gota a gota evaporada para todo a cidade balneária. Uma baleia viva era pouco a pouco atraída do fundo do mar  por toda aquela cidade, com seu livro de tímpanos, interior, com suas páginas estomacais folheadas por intermitências de buscas ao abismo, ventiladas.

Trouxera ela algo de novo ao espaço? A boca entreaberta pronta para a divulgação do “neome” da coisa intromissiva, desengavetada do interior químico do espaço, um bago de uva visionário, alado, saindo-lhe de entre os lábios, borrifando quandos,  num vapor.

De onde viera aquela sensação de que ela era alguma coisa a mais de si mesma, assim feminina com seus vestidos auto-envolventes de dançarina súbita? Fora descendo os flancos timbrados pelas sombras das nuvens pesadas casadas com o vulcão que percebera que não a  conhecia inteiramente, a essa irmã mais velha, sempre mais a leste do que ele, quase irreal porque nunca perto. E agora, essas visitações. O que desejava, ela que tanto se afastara dele todos esses tempos, pelos seus estudos de levitação, em seus estúdios arbóreos, em meio aos seus jogos metafísicos com nuvens marítimas, naquela ilha que ia construindo aos poucos extravasando os aterros ao redor como de si mesma, aracnídea, alimentando-se com o improvável de  novos frutos genéticos de seu bosque palaciano, isolada no meio do grande arquipélago no golfo do mar altíssimo, acima do horizonte?

O que queria dele, mesmo, relatar? Somente dos pontos onde caíram os dentes do imenso ser de antes do diluvio vinha ela lhe falar? Evadia-se algo dela que não percebíamos, ainda. Era preciso cautela milenar, aprendida com o sangue e com o mar.