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domingo, 21 de abril de 2013

Os Tempos Estão Mudando...





Lembro os anos sessenta quando eu ouvia Buddy Holly desde a hora de acordar até o almoço.

Depois de comer, punha uma camiseta, meus óculos de armação grossa e caminhava um pouco debaixo do sol quente até a banca do Alfredo para trocar figurinhas de alienígenas. Comprava alguns exemplares antigos de gibis do Superman e voltava pra casa. Me trancava no quarto, colocava um pouco de Elvis na vitrola e ia escrever histórias de ficção científica para passar o tempo.

À medida que a tarde passava, saia Elvis, entravam Troggs, Beattles, Kinks, Animals. E eu amava Bob Dylan apesar de ser só um cara com um violão e uma voz anasalada, na época muito estranho pra caras como eu. Mas o fato dele falar coisas que eu realmente achava importante me dava a impressão de que pelo menos uma pessoa nesse mundo tava realmente afim de simplificar as coisas pra mim, ao invés do contrário.

De tarde eu tomava um banho, vestia uma calça de brim, uma camisa branca por dentro, meu cinto de fivela dourada, sapatos bem engraxados, colocava meu chapéu preto meio que de lado e ia à praça conversar com outros cavalheiros que, como eu, não viam problema nenhum em tomar uma cervejinha, conversar sobre rock´n´roll, filme de terror e atrizes gostosas como Brigitte Bardot.

À noite, sempre tinha festa na casa de alguém. Havia uma loira de nome Glória. Nunca chegamos a ficar juntos, mas sei que ela tinha uma queda por mim, pois sempre estávamos a trocar olhares e ela sempre sorriu pra mim. A possibilidade de dançarmos era o que tornava aquelas noites mágicas. Um dia, consegui chamá-la para uma dança. Ela era daquelas menininhas de beleza inocente que sempre está acompanhada de suas amigas, com seu risinho tímido e meigo, de voz suave e um perfume natural e inebriante que me deixava sonhando por semanas. Eu era um garoto meio desbocado que as mães das meninas detestavam e com quem as proibiam de falar, mas com quem elas não conseguiam deixar de falar. Daqueles que causam problemas de verdade e acham muito divertido ver o circo pegar fogo.

Tudo isso fazia daquele um tempo muito bom. Me lembro de como sempre achava que estava vivendo na época certa, apesar de toda a porcaria pela qual o mundo estava passando. Uma guerra falsa que era uma ameaça verdadeira, os preconceitos e a repressão. De certa forma, até aquela tensão toda era boa. Era bom ser jovem e esperto o bastante para saber e ter consciência de tudo e mesmo assim não ligar pra nada a não ser música, cinema, mulher e confusão.

Eu amei minha juventude.

Só que há um problema: nada disso aconteceu. Eu não sou esse cara. Nem sei de onde ele saiu. Faz tempo que ele mora em mim, acho que ainda era garoto quando ele surgiu. Tenho uma saudade imensa desse tempo, a ponto de chorar algumas vezes, vendo as fotos de todas as pessoas com quem eu andava, lendo cartas delas, falando com uma ou outra ao telefone sobre aquelas aventuras...mas nada disso existiu.

Sinto-me velho como esse cara seria hoje, mas eu não sou ele. Como posso explicar isso? Não há outro jeito senão imaginando que esse rapaz é um eu diferente de uma realidade paralela qualquer, gritando através da sangria cósmica que existem coisas legais para serem vividas, que eu não sou tão velho quanto o mundo e as circunstâncias me fazem acreditar que sou e que eu devia jogar algumas coisas para o alto antes de ser engolido por todo o tempo que não vivi.

Quando paro pra pensar nos acontecimentos do mundo vejo que nossa época é bem parecida com aquela. Uma juventude desatenta e inconsequente, uma ameaça nuclear assombrando os jornais e a esperança invisível de que do nada alguém muito especial apareça para mudar as coisas. Não sei o quão triste me sinto por quase não me lembrar de nada do meu próprio passado e sentir tanta falta da vida desse meu eu alternativo. Acredito que na história jamais houve um tempo em que não se estivesse em crise. A luta pela sobrevivência nos domina, ofusca nossa percepção e liquidifica nossas aspirações e sonhos, tudo é sempre uma névoa de preocupação e o esforço é imenso por construir um amanhã que não deixa de ser incerto. Quanto mais se pensa, menos se entende como a humanidade caminha.

Mas as coisas estão mudando. Os tempos estão sempre mudando. O que não muda é o fato de que jamais saberemos no que tudo vai dar, por mais que queiramos ter o controle de tudo. E acho que os momentos do passado que nossos “eus alternativos” mais sentem saudades, nesses tempos obscuros de solidão e loucura, são daquelas noites lindas em que o espírito ficava leve ao som de músicas de amor e se podia muito bem flertar com a Glória. Sem culpa alguma, sem qualquer pudor.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Little Boy.

 



- Foi assim mesmo- disse o enfermeiro- sem parágrafos. Insano como se esperava, mas não dá pra negar, doutor, faz sentido de alguma forma.

O doutor lia e balançava a cabeça pensativo ao concordar. Tudo estava registrado em três fotografias. Uma prova irrelevante para a Justiça. Mas só entre os dois, a explicação para tudo. Toda a tragédia.

O enfermeiro fizera questão de que tudo estivesse legível ao fotografar o texto na parede do quarto do rapaz, pois sabia que estava tudo ligado. O texto, as atitudes. Um rapaz que conseguiu mudar muita coisa, embora tenha feito pelos meios mais errados. Pela primeira vez, em quinze anos de profissão, o doutor pensava agora se não dera um diagnóstico incorreto.

- Encontrou mais alguma coisa lá?- perguntou após um suspiro cansado. Foram dois dias estafantes. Corridos. Estava todo mundo cansado. Ele via no rosto do enfermeiro a vontade de fazer algo mais, mas o melhor mesmo seria descansar. Não havia mais nada que se pudesse fazer. Apocalipse é apocalipse. Ponto.

- Não, doutor. - respondeu o enfermeiro. - Nada mais que a polícia ou qualquer um de nós já não tenha visto.

O doutor balançou a cabeça mais uma vez. Os dois fizeram um longo silêncio. O enfermeiro apanhou da mesa as fotos mais uma vez. Olhou-as com cuidado. Leu o texto inteiro novamente.

- Anarquista... - sussurrou.

Com a cabeça apoiada na mão, o doutor que se balançava de um lado para outro na cadeira jogou sobre ele um olhar inquisitivo.

- Isso aqui é anarquismo puro, doutor. - disse o enfermeiro ao perceber a dúvida no olhar do outro. – Quer dizer... aposto que sei o que o senhor está pensando agora. Mas não tinha como a gente saber. O senhor não errou. Ele só não devia estar aqui. Como nenhum dos outros. O lugar deles não é aqui. Não importa o que ele tenha feito. Esse lugar não é adequado pro que a gente tá tentando fazer.

- É mesmo... - anuiu o doutor num tom cansado. - É mesmo.

O enfermeiro colocou de volta as fotos sobre a mesa do doutor. Recostou-se por um momento apenas para conferir se ele estava realmente bem. Viu um semblante tomado pela culpa. Para essa doença não havia remédio algum. E até inventarem a máquina do tempo, continuaria assim.Bateu as mãos nos braços da cadeira e levantou-se num movimento rápido.

- Bem, acho que já vou, doutor. Se precisar de alguma coisa... Alguém pra conversar. Pode ligar. Moro no São Cristóvão. Minha esposa disse que está tudo bem por lá. Ninguém foi atingido na periferia. Se quiser um lugar mais tranquilo pra dormir...

- Ok, obrigado mesmo. - disse o doutor. - Também vou pra casa. Estou quebrado. Por dentro e por fora. Bem que eu gostaria de ter uma esposa me esperando. Sã e salva. – disse por fim com um risinho insosso.

O enfermeiro não conseguiu depurar a comiseração do olhar que lançou para o amigo. Virou-se e saiu.

- Você poderia dizer agora. - disse o doutor antes que o enfermeiro fechasse a porta.
- Hã? – disse o enfermeiro colocando apenas metade do corpo de volta.
- Você disse que passaria na minha cara meu erro. Estava certo o tempo todo. Eu lhe devo desculpas.
- Não pense nisso. Como eu disse, não tinha como saber. Eu segui minha intuição apenas. Somos profissionais da saúde. Trabalhamos com evidências, não com intuição. Eu só estava nervoso, não faria isso jamais.

Os dois estavam sendo sinceros e percebiam isso em seus olhares e palavras.

- Eu sei... - disse o doutor- eu sei.

O outro fez um sorriso com o canto da boca. Daquele tipo que sai com o maior esforço em situações que pedem um sorriso justamente quando não há força nem motivo para tal. Pelo enfermeiro ter conseguido dando seu máximo, o doutor agradeceu. Mas sabia que o amigo estava sendo apenas generoso.

Quando a porta se fechou, o doutor levantou-se e olhou as fotos sobre a mesa. Afastou as três que foram trazidas pelo enfermeiro. Três fotografias que eram partes complementares de um texto escrito na parede com giz de cera molhado. Abaixo delas estavam outras. As que deveria entregar à polícia. Roupas de funcionários do hospital jogadas num canto de parede da ala norte. Portões do corredor arrebentados pelo lado de fora. As provas de que o paciente havia recebido ajuda de pessoas externas à equipe. Os donos dos uniformes foram encontrados amarrados no canteiro de obras ao lado do hospital. Na verdade um terreno cheio de entulho que o governo se comprometeu a retirar, mas nem isso nem as obras haviam começado em dois anos e os pacientes continuavam apertados em quartos pequenos, mal iluminados e com paredes sujas. Quartos como o do paciente em questão.

Quando chegou ao hospital, a única pessoa com quem o rapaz conseguia se comunicar era com o enfermeiro. Recusava-se a dizer sequer uma palavra a médicos, técnicos ou qualquer outro funcionário. De alguma forma percebia nele a capacidade de entender coisas que deveriam ser ditas a um número maior de pessoas. E não era para menos. “Anarquista”. Sim, o enfermeiro entendia. Havia diálogo ali. Pena que o doutor não deu ouvidos quando o enfermeiro avisou que aquele paciente era diferente. Inteligente demais. De família rica. Típico caso de jovem revoltado que desafia o pai empresário e acaba no hospital psiquiátrico. “Drogas demais”, alegou o segurança do pai quando o veio internar. Estava muito agitado. “Precisa de uma camisa de força!”, disse o brutamonte. O enfermeiro pôs isso no prontuário também.

Dois meses de internação. Não era violento, muito pelo contrário. Parecia completamente normal. Mas aquele olhar. Não era dissimulação, nem ódio, nem loucura. Era um misto de tudo isso. Demorou em entender da forma mais dura que o nome daquilo era obstinação. Tomava normalmente os medicamentos. Até entendia deles. Tranquilizantes e moderadores do humor. Participava das terapias de grupo. Fazia os passarinhos de papel da terapia ocupacional e conversava com os outros pacientes, os mais e os menos normais com a mesma paciência e respeito. E escrevia. Muito. Dia e noite em um bloquinho de notas que sumiu junto com ele.

“Ele precisa ir para outro lugar.” Dizia o enfermeiro. “Alguma coisa é verdade ali. Ele não fez o que fez num delírio”.  Mas o doutor insistira no diagnóstico. Abriu o prontuário que jazia junto às fotos e leu sua parte das anotações:

Código de Classificação de Doenças F 20.0: Esquizofrenia Paranoide. Sintomas produtivos: alucinações visuais e auditivas. Mania de perseguição. Imagina fazer parte de um grupo revolucionário que tem como objetivo iniciar uma nova sociedade. Comunicação seletiva. Sintomas depressivos. Agressividade esporádica. Internado pelos próprios familiares após roubar grande soma em dólares do próprio pai. Registros encontrados no quarto do paciente revelam que o objetivo do roubo seria a compra de artefatos nucleares por meio de contatos com grupos fundamentalistas muçulmanos no Oriente Médio. Soma subtraída conduzida a paradeiro ainda não identificado.

Fechou o prontuário e jogou-o sobre a mesa. Apanhou as três fotos do texto da parede e pregou-as com tachinhas no flanelógrafo atrás da mesa na ordem em que se seguia o escrito. Aquele texto lhe condenava secretamente. Mas tinha a certeza de que condenava a todos. Todos mesmo, toda a Humanidade. Desde o início dos tempos. Desde que o Homem é capaz de registrar seus feitos. Desde que é capaz de sobrepor sua dominação à natureza e a seus semelhantes mais fracos.

Foto 1:
“Eu não posso dizer o que vem depois, mas antes de melhorar, a coisa vai piorar muito. E esta não é uma perspectiva pessimista. Muito pelo contrário. A força destruidora é também uma força criadora. É necessário que se desfaça tudo que está aí. A política, o modo como os poderosos mantêm a estrutura parasitária da sociedade sustentada pelo trabalho da maioria mais pobre e desprovida. Não haverá perfeição. A Humanidade dificilmente verá uma forma de organização na qual o respeito e a compreensão completa predominem nas relações entre as pessoas. A minha ideia é que isso possa se concretizar em pequenos grupos que estabeleçam o compromisso de manterem-se íntegros em si e não se agridam mutuamente. Parece uma organização tribal, o que dá a ideia de que a paz verdadeira somente poderá ser alcançada quando a Humanidade assumir que o progresso tecnológico precise sofrer uma desaceleração de radical severidade.”

Foto 2:
“É exatamente isso. O progresso científico avança em uma velocidade vertiginosa. Quase não percebemos a relevância de uma descoberta ou invenção antes que a próxima seja anunciada. Nesse sentido, é necessário que haja a consciência coletiva de que já possuímos considerável nível de desenvolvimento e que devemos adotar uma postura mais reflexiva, concentrando esforços na organização social, de modo a que possamos direcionar as formas de avanço tecnológico de maneira mais lúcida e integrada, em que todas as pessoas tenham conhecimento e acesso ao recurso criado e possam contribuir para que ele possa ser posto em prática a fim de produzir um benefício que alcance cada membro da coletividade. Pequenos grupos. A evolução da Humanidade não é baseada na capacidade orgânica de resistir a uma condição ambiental adversa.”

Foto 3:
“Mas sim baseada na capacidade de manter um status pacífico em uma organização igualitária na qual cada pessoa é provida dos recursos necessários à sua subsistência, lazer, satisfação intelectual e espiritual, com liberdade para produzir e expressar ideias e que estejam em total e voluntária comunhão com o grupo, senão voluntariamente, sozinho, mas que não haja qualquer autoridade, a não ser sua própria compreensão, que possa regular ou definir sua conduta e suas escolhas. Essa capacidade, aliada à vontade de relacionar-se de forma sustentável com a Natureza definiria um novo Ser Humano. Não posso dizer o que vem depois. Mas o que vier tem início hoje. Ass.: Little Boy”.

Deveria ter ouvido melhor o amigo. Deveria ter ouvido melhor seu paciente. Grande médico. Logicamente ninguém colocaria a culpa nele. Sua carreira estava intacta. A cidade não. Longe disso. O rapaz fora resgatado do hospital. Seu diagnóstico equivocado não determinava que um dia os amigos “imaginários” dele fossem render funcionários do hospital e retirá-lo de lá como se faz com traficantes em delegacias. Não era culpa de ninguém. Essa era a versão oficial. Mas a versão de sua consciência o condenava. O Centro de Fortaleza e todos os bairros ao redor foram varridos do mapa por uma bomba nuclear de fabricação artesanal. 22 mil pessoas mortas em segundos. 120 mil pessoas feridas pela onda térmica. Uma nuvem radioativa se espalhava naquele momento por todo o Ceará e oceano afora. O pulso eletromagnético colocava em pane a comunicação à distância.

Não era culpa de ninguém. Mas o rapaz tinha razão. Era culpa de todo mundo. Pensando nessas coisas o doutor deixou-se cair novamente na cadeira. Olhou as fotos no quadro. Depois baixou a cabeça e chorou. Apocalipse é apocalipse. Ponto.




sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Quem Vigia os Vigilantes






A frase que Alan Moore coloca como a pergunta chave de uma de suas obras primas aqui aparece como uma proposição. Uma sentença que você pode colocar como um apontar de dedos para o clássico culpado pelos males e conflitos do mundo. Desde a destruição das florestas tropicais até às sucessivas e, infelizmente, banais micro e macro guerras que tornam sacais os noticiários. Os assassinatos, a deterioração do intelecto jovem, as desertificações e o aquecimento global, a iminência de uma nova forma de pandemia.


Somos exatamente aqueles que deveriam estar na ativa, perguntando e questionando, forçando a justiça a ser feita, tornando a revolta uma arma, mas também um escudo, pois a revolta consciente, fruto de uma educação consolidada e arraigada em um espírito vivaz e aventureiro, é uma força tão intensa e transformadora quanto a força da água.


O termo “vigilante”, para as autoridades e para o direito penal de vários países, incluindo o nosso, designa cidadãos que tomam para si o dever de exercer e fazer valer a justiça prevista pela Lei vigente no Estado, obrigação do próprio Estado, incumbência exclusiva do mesmo. Em outras palavras, o vigilante é um vingador. Um citadino cansado de esperar que o lento malabarismo das autoridades em achar buracos na Lei cesse, impedindo que tais autoridades achem motivos para não trabalharem. No contexto das noções distorcidas da nossa sociedade, o vigilante é um bandido, passível de ser preso e condenado tal como supostamente o algoz vingado também o é. No nosso contexto, o vigilante é um herói. O único disposto a dar sua vida para fazer o trabalho sujo que ninguém quis fazer enquanto era limpo.

Hoje, tudo está fosco, turvo por uma nuvem de inverdades e maquinações “propagandescas“ manipuladas por não se sabe quem. Talvez o mundo esteja mesmo caindo em um aumento entrópico na busca de desacelerar, um grito final por ajuda, um pedido de socorro. Um mundo precisa de vigilantes, pois eles são as medidas extremas que surgem em situações extremas.Perceba, sempre que uma guerra está para surgir, o mundo passa por uma crise. A crise por territórios nas colônias da África antes da Primeira Guerra Mundial de 1914. A crise de 1929, com a queda da Bolsa de Wall Street pouco menos de uma década antes da Segunda Guerra Mundial. A Revolução Cubana e a caça às bruxas instaurando o medo, somando-se à terrível guerra psicológica taxada pela história de Guerra Fria que culminou em conflitos sangrentos como a Guerra do Vietnã, uma verdadeira luta de Davi contra Golias onde o Davi manteve a tradição da vitória, claro, a seu preço.


Diante dessa possível verdade, o que se pode esperar como fruto do que os jornais nomeiam de crise Econômica Mundial? Não há como saber. Imagino que você, meus queridos, não tenham muita ideia do que possa ter ocasionado a tal da crise, ou sequer entendam por que raios ela quebrou os dois joelhos da nação economicamente mais forte do mundo. Semana passada a Coréia do Norte descumpriu sanções da ONU e fizeram testes com mísseis de longo alcance que tiraram fino no Japão e disseram o que todo mundo sabe ser mentira: “foi o lançamento de um satélite”. Não há satélite algum na órbita prevista na exosfera e nenhum sinal de satélite novo captado pela tecnologia de telecomunicações. Não se pode afirmar nada a respeito do futuro. O futuro não existe. E, como dizem, o passado já não existe mais. O mundo certamente caminha para o caos e o caos tende a aumentar. Só há como tentar ter o poder de controle sobre algo no mundo, na nossa vida se soubermos onde estamos, por que estamos aqui e se nosso contexto realmente precisa de nós. Não há como arrumar uma casa que está no escuro. Precisamos acender as luzes. E a luz do mundo é o pensamento, a virtude, a vontade de excelência, mãe da civilização, a ânsia por fazer bem feito mesmo a tarefa mais simples, mais singela e, aparentemente mais inútil.

Penso que essa excelência que os antigos gregos chamavam de Areté foi substituída por uma preguiça enorme de pensar. Pois quem pensa toma posse do próprio destino. E que tem o controle de si mesmo sabe para onde está indo e reconhece a mentira e a manipulação, luta contra a injustiça, sabe falar, sabe argumentar e facilmente vence guerras e conflitos sem desferir sequer um soco, quem dirá um tiro. Quem sabe pensar não precisa de exércitos, territórios, estratégias bélicas nem armas nucleares. Não é a toa que a censura é o primeiro recurso de uma ditadura. Calar as vozes inteligentes é o caminho mais fácil para o domínio.


A pergunta que lhes faço, tentando não fugir do nosso assunto depois de tantos aparentes rodeios é: “Quem são os vigilantes?”. Há como evitar o mal que possivelmente se aproxima? Eu posso fazer algo para evitá-lo?

O beija-flor, mais uma vez, contraria o leão e importuna as mentes acomodadas e , ao invés de despertar o interesse pela situação do mundo, na busca de torná-lo menos injusto, afugenta-as e separa ainda mais o joio do trigo. Não sei se isso é bom ou ruim, mas preciso tentar.

Só peço, meus amigos, meus queridos, que pensem. Mesmo que ao final de suas reflexões, a escolha seja a de não se importar com o caminho das coisas, com os rumos do mundo. Pensem e busquem pensar mais ainda no sentido de você estar aqui, mesmo que ao final de suas reflexões a conclusão seja a de que não há sentido algum. Porém, entenda que , se não há sentido em estar aqui, é perfeitamente verossímil o poder que você tem de construir um sentido. Pense sempre que, já que você está aqui mesmo, não custa nada tentar ser o melhor. Assuma sua vida e o seu papel. Pois você que o mundo está chamando. Você é o vigilante. Dê um passo a frente e tome posse da sua vida antes que o sistema, os cinzas ou seja lá quem for que esteja por trás de toda a bagunça tome. Construa sua mente, seu pensamento. Construa uma idéia, um objetivo e inclua o mundo ao seu redor nesta idéia. Busque torná-la real e se surpreenderá positivamente com o pouco dela que de fato se concretizar. Vai ver que pode muito mais. Construa seu próprio ser, leia, saiba o que está acontecendo ao seu redor e acredite no efeito borboleta, que uma ação mínima pode resultar numa seqüência de eventos imprevisíveis capazes de transformar tudo. Se não der certo, pelo menos você vai saber que a escolha foi sua e de mais ninguém. E acredite, as pessoas ao redor se lembrarão do herói, não do vigilante.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Sartre e o Nada.



Por Edvaldo Ramos Leite


[Sartre em; O ser e o nada, ou qual quer bobagem dessas, eu não me importo eu não ligo!
Ensaio ontológico sobre a tensão argumentativa noturna nos ante – Sartreanos e etc.etc. e tal.]

É madrugada. A poeira das revistas e livros antigos faz descer do meu nariz um tipo de catarro engraçado que brilha bonito. É mais viscoso que os catarros normais e observo sua lenta descida até o pano de chão que arrumei para apará-lo.

Enquanto vejo esta bela secreção sair de dentro de mim, penso em como é difícil juntar umas letrinhas pra dizer as coisas nas quais acreditamos. Assim, sem parecer nem menos do que você é. “What is it you want to change?” (o que é que você quer mudar?). Aposto que, toda vez que as letrinhas teimam em sair da sua cabeça você pensa nessa frase e ela se repete exaustivamente ai dentro.

Sartre repousa pesadamente sobre minha mesa, no interior das mais de quinhentas páginas de “O Ser e o Nada”, que eu não sei se vou ler (provavelmente não, o que você acha?). Conforta-me a ideia de que talvez Sartre também não soubesse o que “O Ser e o Nada” mudaria. Conforta-me ainda mais a certeza de que, mesmo que eu quisesse, não me meteria a escrever mais de quinhentas páginas e ainda assim não saber o que muda depois de tudo.

Acho que não é muito adulto brincar de elevador com o próprio catarro. Mas sei lá, a filosofia, pelos mesmos motivos, também não é muito adulta. Cada um defende aquilo em que acredita.

Eu acredito no catarro. Você pode acreditar em Sartre ou no seu catarro. O fato é que, tudo que preciso é de um lenço! Para Sartre, conseguir umas letrinhas era bem mais fácil do que é pra gente (será?). E que diferença faz? Bem, não há nenhuma diferença entre Sartre e eu, a não ser a de que ele precisaria de zilhões de argumentos para explicar que o meu catarro existe, enquanto eu simplesmente sei que ele existe.