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domingo, 21 de abril de 2013

Microcontos.



Por Tiago Velasco

Empire State

Era a primeira vez em Nova York. Lua de mel. Depois de três dias, ela disse que o casamento foi um engano. Marcou a passagem de volta para a noite. Só a dela. Ele saiu desesperado pelas ruas de Manhattan. Adentrou a portaria do prédio. Uma fila enorme aguardava o elevador. Estava com pressa. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10 degraus, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, ... ,93,  94, 95 degraus, 96, 97, 98, 99, ..., 431, 432, 433, o coração havia de suportar, 434, 438, ... 918, 919, só mais alguns, 920, 921, 922, ..., 1573, arf, arf, arf. Decepcionou-se com as grades até o teto.


Top model
Desfilava nas passarelas de Paris, Nova York e Milão. Os principais estilistas faziam questão de que ela vestisse seus looks. Não assinava contrato de exclusividade. Diziam que tinha um caminhar único. E uma beleza exótica. Um rosto indecifrável era o elogio máximo. Inexpressiva, fazia a roupa brilhar. Morreu sem uma ruga.


Reflexo
– Por que você me ama?
– Porque você me ama!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Microconto.

Por: Tiago Velasco.


Microconto

Há quem anote pequenos trechos de histórias em cadernos para depois escrever crônicas, contos ou romances. Eu me dou por satisfeito.

Memória ocular

Operou a vista. Da miopia, sobrou apenas o tique de ajeitar os óculos sobre o nariz.

Mundo animal

Primeiro foi um porco. Patos e galinhas em seguida. Os jacarés do mangue não deixavam passar nada. Tinham sonhos ambiciosos. Os bracinhos e perninhas das crianças que brincavam próximas à vala negra. Os dedinhos das menorzinhas enchiam as bocas dos répteis de saliva. O caviar que compensa o mau cheiro da região. Os jacarés sabem esperar. Parados, quase mortos. Economizam energia para o bote certeiro. Delícia. E pensar que antes era tudo um matagal só. Bendito progresso.


A Noiva

Véu, grinalda, chuva de arroz. Jogou o buquê para a futura mulher de seu marido.

Rompimento


O celular vibrou. Mensagem de texto. Apertei o botão. “Vc eh mto ciumento. Nao aguento mais esses ataques no meio da rua. Não respeita ngm. Chega. Pode apagar o meu número do seu cel e me tirar do seu feice. Vc jah eh passado. Acabou de vez.” Dei mais alguns passos olhando para a tela do celular, de cabeça baixa. As pessoas na calçada desviavam para não trombar comigo. Pensei em responder. Cheguei a digitar as primeiras palavras. Desisti. Eu nem tinha namorada.