Resolvi me perder e não falar sobre você durante
muito tempo. E em contrapartida, ser mais um a exagerar nos cigarros, nas
drogas, num círculo de amigos disfuncionais e com tendências destrutivas. Assim
fui eu na noite enquanto te observava além de si mesmo, aquela solidão ao redor
da mesa enquanto que, pra disfarçar o tempo, eu fingia escrever uma mensagem de
vida ou morte no celular. Mas tudo pareceu em vão, você nem sequer decifrou o
jogo cujo ápice aconteceria em três horas. A cama onde deitaríamos lânguidos
numa paisagem erguida além de nossas neuroses e horários a cumprir. Nos
desencontramos antes mesmo de qualquer arrependimento. Aí você foi embora, pedi
outra bebida, cruzei as pernas numa nova tentativa de glória, medo, loucura e
redenção.
domingo, 21 de abril de 2013
Microcontos.
Por Tiago
Velasco
Empire State
Era a primeira vez em Nova York. Lua de mel. Depois
de três dias, ela disse que o casamento foi um engano. Marcou a passagem de
volta para a noite. Só a dela. Ele saiu desesperado pelas ruas de Manhattan.
Adentrou a portaria do prédio. Uma fila enorme aguardava o elevador. Estava com
pressa. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10 degraus, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18,
... ,93, 94, 95 degraus, 96, 97, 98, 99,
..., 431, 432, 433, o coração havia de suportar, 434, 438, ... 918, 919, só
mais alguns, 920, 921, 922, ..., 1573, arf, arf, arf. Decepcionou-se com as
grades até o teto.
Top model
Desfilava nas passarelas de Paris, Nova York e Milão. Os principais estilistas faziam questão de que ela vestisse seus looks. Não assinava contrato de exclusividade. Diziam que tinha um caminhar único. E uma beleza exótica. Um rosto indecifrável era o elogio máximo. Inexpressiva, fazia a roupa brilhar. Morreu sem uma ruga.
Reflexo
– Por que você me ama?
– Porque você me ama!
O Céu Oceano
Uma nuvem feito pedra
Flutua no oceano calmariaEnquanto ondas de vento
Quebram nos rochedos de minha alma.
Meu peito é cais aberto
Esperando a chegada de um amor tranqüilo
Que vaga perdido
Sem meu endereço, nem meu destino.
O céu oceano é o que ainda me mantém em terra
Aprisionado por uma promessa
De que se eu ficar parado
O mundo irá girar
E trazer para mim uma promessa antiga.
Os Tempos Estão Mudando...
Por Edvaldo R.
Leite
Lembro os anos
sessenta quando eu ouvia Buddy Holly desde a hora de acordar até o almoço.
Depois de comer,
punha uma camiseta, meus óculos de armação grossa e caminhava um pouco debaixo
do sol quente até a banca do Alfredo para trocar figurinhas de alienígenas.
Comprava alguns exemplares antigos de gibis do Superman e voltava pra casa. Me
trancava no quarto, colocava um pouco de Elvis na vitrola e ia escrever
histórias de ficção científica para passar o tempo.
À medida que a
tarde passava, saia Elvis, entravam Troggs, Beattles, Kinks, Animals. E eu
amava Bob Dylan apesar de ser só um cara com um violão e uma voz anasalada, na
época muito estranho pra caras como eu. Mas o fato dele falar coisas que eu
realmente achava importante me dava a impressão de que pelo menos uma pessoa
nesse mundo tava realmente afim de simplificar as coisas pra mim, ao invés do
contrário.
De tarde eu tomava
um banho, vestia uma calça de brim, uma camisa branca por dentro, meu cinto de
fivela dourada, sapatos bem engraxados, colocava meu chapéu preto meio que de
lado e ia à praça conversar com outros cavalheiros que, como eu, não viam
problema nenhum em tomar uma cervejinha, conversar sobre rock´n´roll, filme de
terror e atrizes gostosas como Brigitte Bardot.
À noite, sempre
tinha festa na casa de alguém. Havia uma loira de nome Glória. Nunca chegamos a
ficar juntos, mas sei que ela tinha uma queda por mim, pois sempre estávamos a
trocar olhares e ela sempre sorriu pra mim. A possibilidade de dançarmos era o
que tornava aquelas noites mágicas. Um dia, consegui chamá-la para uma dança.
Ela era daquelas menininhas de beleza inocente que sempre está acompanhada de
suas amigas, com seu risinho tímido e meigo, de voz suave e um perfume natural
e inebriante que me deixava sonhando por semanas. Eu era um garoto meio
desbocado que as mães das meninas detestavam e com quem as proibiam de falar,
mas com quem elas não conseguiam deixar de falar. Daqueles que causam problemas
de verdade e acham muito divertido ver o circo pegar fogo.
Tudo isso fazia
daquele um tempo muito bom. Me lembro de como sempre achava que estava vivendo
na época certa, apesar de toda a porcaria pela qual o mundo estava passando.
Uma guerra falsa que era uma ameaça verdadeira, os preconceitos e a repressão.
De certa forma, até aquela tensão toda era boa. Era bom ser jovem e esperto o
bastante para saber e ter consciência de tudo e mesmo assim não ligar pra nada
a não ser música, cinema, mulher e confusão.
Eu amei minha
juventude.
Só que há um
problema: nada disso aconteceu. Eu não sou esse cara. Nem sei de onde ele saiu.
Faz tempo que ele mora em mim, acho que ainda era garoto quando ele surgiu.
Tenho uma saudade imensa desse tempo, a ponto de chorar algumas vezes, vendo as
fotos de todas as pessoas com quem eu andava, lendo cartas delas, falando com
uma ou outra ao telefone sobre aquelas aventuras...mas nada disso existiu.
Sinto-me velho como
esse cara seria hoje, mas eu não sou ele. Como posso explicar isso? Não há
outro jeito senão imaginando que esse rapaz é um eu diferente de uma realidade
paralela qualquer, gritando através da sangria cósmica que existem coisas
legais para serem vividas, que eu não sou tão velho quanto o mundo e as
circunstâncias me fazem acreditar que sou e que eu devia jogar algumas coisas
para o alto antes de ser engolido por todo o tempo que não vivi.
Quando paro pra
pensar nos acontecimentos do mundo vejo que nossa época é bem parecida com
aquela. Uma juventude desatenta e inconsequente, uma ameaça nuclear assombrando
os jornais e a esperança invisível de que do nada alguém muito especial apareça
para mudar as coisas. Não sei o quão triste me sinto por quase não me lembrar
de nada do meu próprio passado e sentir tanta falta da vida desse meu eu
alternativo. Acredito que na história jamais houve um tempo em que não se
estivesse em crise. A luta pela sobrevivência nos domina, ofusca nossa
percepção e liquidifica nossas aspirações e sonhos, tudo é sempre uma névoa de
preocupação e o esforço é imenso por construir um amanhã que não deixa de ser
incerto. Quanto mais se pensa, menos se entende como a humanidade caminha.
Mas as coisas estão
mudando. Os tempos estão sempre mudando. O que não muda é o fato de que jamais
saberemos no que tudo vai dar, por mais que queiramos ter o controle de tudo. E
acho que os momentos do passado que nossos “eus alternativos” mais sentem
saudades, nesses tempos obscuros de solidão e loucura, são daquelas noites lindas
em que o espírito ficava leve ao som de músicas de amor e se podia muito bem
flertar com a Glória. Sem culpa alguma, sem qualquer pudor.
quinta-feira, 21 de março de 2013
Isso Não é Uma Revista Literária # 5
Você senta, esfria a cabeça, tenta não pensar em mais nada, só em escrever alguma coisa. As vezes dá certo. As vezes você só tem que esperar a inspiração. E existem pessoas que não acreditam em nada desse negócio de inspiração. Escrever é trabalho, dá trabalho, mas quando você encontra alguns bons poemas por ai, alguns bons contos de bons escritores por ai, vale a pena procurar, como vale pra escrever.
Valeu a pena esperar pelas contribuições para essa nova edição, e vai valer a pena pra você, que vai parar tudo que está fazendo pra ler o que estamos escrevendo.
Bárbara Lia nessa edição, surge com poemas de seu mais novo livro, onde ela de forma silenciosa e poética conversa com Emily Dickinson. Paola Benevides mandou um texto foda, destruidor, que fala da infeliz vida de muitos nos tempos de hoje. Camila Fraga com seu texto forte e doloroso aparece aqui pela primeira vez. Assim como também Lilith A, jovem escritora dessa minha cidade forte Fortaleza, que nos aparece com um conto muito bonito, e muito triste também.
Como falei, pare o que você está fazendo e leia essa nova edição do e-zine. Vai valer.
Carlos Alberto Nascimento
(Edição preparada ao som de John Coltrane - My Favorite Things)
A Flor Dentro da Árvore.
Por
Bárbara
Lia.
“Dentro
da minha flor me escondo...”
Baile das
harpias
Em árvores carbonizadas
Rindo do fim
Fumaça sangra
Nosso jardim
A alma do éden
Adoentada.
Em árvores carbonizadas
Rindo do fim
Fumaça sangra
Nosso jardim
A alma do éden
Adoentada.
“Até
que os serafins acenem com seus chapéus brancos”
Não nasci
para resfriar o mundo
Neste lerdo cortejo de omissões
Estas palavras interditas
Suspensas
Não vim quebrar as pernas do sol
Silenciar cada bemol
Não vim para arrebentar o anzol
Do velho de Hemingway
Neste lerdo cortejo de omissões
Estas palavras interditas
Suspensas
Não vim quebrar as pernas do sol
Silenciar cada bemol
Não vim para arrebentar o anzol
Do velho de Hemingway
Sou mar e trovão no coração
Nasci para amar sem lastro
Para dançar no pátio
It is my way
Nasci para amar sem lastro
Para dançar no pátio
It is my way
“Doce como o massacre de sóis”
Oito
canhões na praça de guerra
Apontam para o peixe
Que traz a paz nas guelras
Quatro gaivotas suicidas
Lambem o babado azulado
Do triste mar-flamenco
Lembro um filme de Babenco:
Ana e o voo
Mariposas no quarto lúgubre
Suas mãos em concha
A esmagar a eternidade insalubre
Apontam para o peixe
Que traz a paz nas guelras
Quatro gaivotas suicidas
Lambem o babado azulado
Do triste mar-flamenco
Lembro um filme de Babenco:
Ana e o voo
Mariposas no quarto lúgubre
Suas mãos em concha
A esmagar a eternidade insalubre
“A
lentidão das palavras do arcanjo ao acordá-la”
O sagrado
despe as ilusões
e abraça as árvores mortas
Suas folhas azul esmaecido
qual manto da Virgem de Cambrai
e abraça as árvores mortas
Suas folhas azul esmaecido
qual manto da Virgem de Cambrai
Os ossos
das árvores adoeceram
e elas morreram – azuis -
Antes que tornassem brancos
os seus cabelos
e elas morreram – azuis -
Antes que tornassem brancos
os seus cabelos
“Sinal
cifrado para enovelar o divino”
Trinta e
dois ventos
da rosa dos ventos
Vinte e um gramas
do peso da alma
Oito países
a comandar a Terra
UM Deus louco
pelas ruas bombardeadas
da rosa dos ventos
Vinte e um gramas
do peso da alma
Oito países
a comandar a Terra
UM Deus louco
pelas ruas bombardeadas
“O
pedigree do mel não diz nada a uma abelha”
O rancor
dos homens
Contaminou as flores
As abelhas
Morreram de cólera
Adocicada
Último zumbido
Acordou o Sol
Em cadência afinada
Qual canção do Vangelis
Contaminou as flores
As abelhas
Morreram de cólera
Adocicada
Último zumbido
Acordou o Sol
Em cadência afinada
Qual canção do Vangelis
Farmacopeia.
A solidão é maior que o mundo inteiro. Raça humana que não se abraça, quando
resolve fazer parte da história do outro, a tinta do tinteiro se afasta e as
palavras ressecam. Amarelam-se as páginas que se viram feito caras, feito as
costas, feito as portas que se batem quando são postas as vidas em aberto. Tudo
tem um preço. Nada tem valor. Alguns livros são comprados pela capa, enfeitam
prateleiras, viram alimento para traças. Vendem-se mais dramas e catástrofes
que as fábulas de cor rosa. A tolice do homem está em querer ler na ficção o
que acontece na realidade, porém com doses mais inacreditáveis de sofrimento.
Homeopatas! Sangue nos olhos dos outros é refresco de groselha. O pavor se
pavoneia em chantagem, abre margem para a comoção. Aplaude a plateia. Vítimas
de seus próprios egos, emoção embotada na garganta, chaga sem prego. Jesus nos
salvou mesmo ou se perdeu na gaveta dos dízimos? Diz-me o quê em relação à sua
existência? Está valendo a pena de morte? A cada febre terçã faz-se uma novena.
À própria sorte, que graça teria um bilhete premiado sem que fosse
compartilhada a notícia? Escondem-se os abastados dos interesseiros agora por
cultivarem a ilusão da jactância, o fato é que os pretensos ricos sentem inveja
dos esfarrapados no quesito alma. Ninguém sabe se aturar sozinho, na verdade,
ninguém se quer sem o próximo, que quanto mais aproximado está, aí se
proliferam os defeitos feito baratas expulsas dos ralos. Quando não, as
qualidades são aproveitadas por tempo limitado, manipuladas, pois hoje em dia tudo
é reciclável. Poucos não são os rasos. Raros são os maduros sustentáveis.
Refém
do chefe, do marido, da mãe, da televisão, do partido, da contrapartida, da
contravenção... Viciado em gula, luta no tatame, funkpancadão, aspartame, shake diet, Chuck Norris,
cachaça com ou sem limão... Dependente físico da obesidade mórbida, da foda fora do casamento, do ajuntamento falido, do palavrão
frente às crianças, da moda em 30, 60, 90 sem entrada e sem juros... Afeito a
cheques sem fundo, fundo de poço, ostentação, esteticista, açougue, maltrato
animal, agiotagem fatal, cigarros e Marijuana (foi ela quem disse certa vez
trajando vermelho até os olhos: - Não se chega ao pó senão por mim). Tarja
preta é o remédio para a censura. Quem não tiver pecado que atire a primeira
pedra, pode ser de crack, pode subir o telhado de vidro alheio, pode ser o
equivalente em cacos do seu espelho. É de doer o coração dos mais fracos,
porque os mais fortes só aprenderam a dormir sob efeito de comprimidos. Por um
triz, Rivotril. Uma estaca de vampiro ao menos estanca sangramento.
Morre-se de hemorragia interna ou na internação. Aceitamos só visitas íntimas,
não aceitamos cartão, a porta da área de serviço está aberta a ladrão de strip poker,
negros com micropênis, prostitutas universitárias, freiras lésbicas e padres
pedófilos. Não damos crédito à velhice, pois antes enfrentar a cadeira elétrica
que a de rodas ou balanço. Vaidade com a idade aumenta. Vamos à queda de braço,
que não se dá a torcer. Torcida uniformizada só serve mesmo para bater. Mas
temos esperança que a paz um dia venha em cápsulas.
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